Um ensaio provocador publicado na revista americana Persuasion ataca um ponto nevrálgico do debate educacional contemporâneo: a erosão dos clássicos nos currículos de humanidades. O autor, Henry Oliver, aponta para o departamento de Inglês da Universidade de Princeton como sintoma de uma tendência mais ampla, onde cursos sobre temas como “bonecas” e “socialismo” recebem o mesmo peso que as obras de Shakespeare ou John Milton — sem que o estudo destes últimos seja obrigatório.

O argumento, no entanto, vai além da costumeira crítica à politização acadêmica. A tese de Oliver é que o problema não reside na existência desses novos cursos, mas na ausência de uma base sólida. Ao apresentar um cardápio de opções sem hierarquia, a universidade estaria oferecendo um currículo “simplesmente fraco” (lame, no original) e, de forma patronizadora, privando os alunos do embate com os textos que fundaram e desafiaram a tradição literária. A solução proposta não é um decreto administrativo, mas um chamado à ação direcionado aos próprios estudantes.

A tradição como ferramenta, não dogma

A defesa do cânone, no texto de Oliver, não é um apelo nostálgico ou um manifesto conservador. A leitura aqui é que o engajamento com as grandes obras — de Chaucer a George Eliot — funciona como uma condição necessária para qualquer crítica subsequente, seja ela feminista, marxista ou pós-colonial. O autor cita a intelectual Camille Paglia, que usou a poesia elisabetana para construir suas teses sobre gênero, e a ensaísta Susan Sontag, cujos comentários culturais eram profundamente informados por seu domínio dos clássicos. A ideia é que a sofisticação intelectual não nasce do vácuo, mas do diálogo, mesmo que conflituoso, com um corpo de conhecimento denso e historicamente relevante.

O movimento das universidades em direção a temas de apelo imediato é visto como um desserviço. Sugere uma subestimação da capacidade do aluno de lidar com a linguagem arcaica, a complexidade histórica e a erudição que marcam as obras canônicas. O ensaio inverte essa lógica, posicionando a leitura dos clássicos não como uma obrigação tediosa, mas como um desafio intelectual que dignifica o estudante. Trata-se de uma recusa em aceitar “opiniões emprestadas” ou se tornar um mero receptor passivo do que o professor ou a instituição define como relevante. O convite é para fazer o trabalho duro de formar o próprio repertório.

O aluno como protagonista da formação

O aspecto mais singular da peça é seu destinatário. Em vez de se dirigir a reitores ou acadêmicos, Oliver fala diretamente aos estudantes do ensino médio e superior. “Exija mais das faculdades”, ele escreve. “Exija estudar as obras que os grandes antes de você estudaram”. Essa convocação à agência individual é o pivô do argumento. A responsabilidade pela profundidade da própria formação é transferida da instituição para o indivíduo, que deve ativamente buscar, questionar e, se necessário, ir contra a corrente curricular para garantir uma educação robusta.

O autor não ignora as complexidades do debate. Ele reconhece que a produção acadêmica de qualidade continua a existir e que o conceito de “cânone” é, por si só, objeto de críticas legítimas. Contudo, ele postula que só é possível participar de forma qualificada dessa discussão após ter lido as obras em questão. Para Oliver, figuras transformadoras como Virginia Woolf ou mesmo o filósofo Jacques Derrida são exemplos máximos dessa premissa: ambos revolucionaram o pensamento, mas o fizeram a partir de uma leitura vasta e profunda da tradição que buscavam superar ou desconstruir.

No fim, a disputa sobre o que deve ou não constar em uma ementa se torna secundária. O que emerge como central é o ato da leitura em si e a postura do leitor. A escolha, segundo o ensaio, não é entre aderir a um lado da guerra cultural, mas entre aceitar um conhecimento pré-digerido ou assumir o desafio de dialogar diretamente com as fontes. É um convite para se juntar à tradição em vez de apenas seguir a multidão.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Persuasion