O Ministério da Educação (MEC) abriu 400 mil vagas para um curso online e gratuito de “Letramento Matemático na Educação Infantil”. A formação de 50 horas se propõe a capacitar professores a usar situações do cotidiano, como a organização de filas, para introduzir o raciocínio lógico a crianças de até 5 anos, em linha com as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
A iniciativa mira a base da pirâmide educacional, um ponto de partida estratégico. A questão, no entanto, é a magnitude do desafio que ela se propõe a enfrentar. Dados recentes pintam um quadro de carência sistêmica, levantando dúvidas sobre o impacto de uma única ação de capacitação diante de um problema que é, ao mesmo tempo, pedagógico, financeiro e estrutural.
A conta que não fecha
Uma pesquisa do Itaú Social com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), citada em reportagem do Money Times, revela o tamanho do vácuo: apenas 48% das redes municipais do país têm ações estruturadas para o ensino de matemática na infância. O apoio financeiro dos estados para essa finalidade é ainda mais raro, chegando a somente 27% das prefeituras.
O problema se aprofunda na qualificação dos próprios educadores. Dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica mostram que um em cada cinco professores que atuam na educação infantil não possui ensino superior. Além disso, a prática de lecionar disciplinas fora da área de formação é disseminada, afetando um terço dos docentes da educação infantil ao ensino médio. O novo curso do MEC, portanto, chega a um corpo docente com lacunas de formação que antecedem qualquer especialização.
O longo caminho da proficiência
A deficiência na base reverbera por toda a jornada escolar. Avaliações do Saeb, o sistema nacional de avaliação, indicam que metade dos alunos do 5º ano do ensino fundamental tem desempenho crítico ou muito crítico em matemática. A taxa se mantém no 9º ano (52%) e explode ao final do ensino médio, quando 67% dos jovens concluem a educação básica sem o domínio elementar da disciplina. Apenas 6% atingem a proficiência esperada.
Mesmo o professor mais bem treinado pelo novo programa do MEC enfrentará barreiras físicas. Apenas 17% das creches e pré-escolas públicas do Brasil dispõem, simultaneamente, de água potável, saneamento, acessibilidade e um espaço de leitura. A formação de capital humano esbarra na precariedade do capital físico.
O foco do MEC na primeira infância é correto e necessário. Contudo, a efetividade de programas de letramento depende de um ecossistema funcional. Sem investimentos paralelos em carreira docente, salários e, principalmente, na infraestrutura básica das escolas, iniciativas de capacitação correm o risco de se tornarem paliativos com impacto diluído na ponta.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times



