Uma megaliçitação para gerir as viagens da Administração Geral do Estado espanhol, avaliada em €604,8 milhões, está sob fogo cruzado a poucos dias do encerramento do prazo para ofertas. As principais associações do setor de agências de viagens, incluindo Gebta, Nautalia e UNAV-Fetave, entraram com recursos formais contra os termos do edital, transformando o que deveria ser um processo competitivo em um impasse jurídico.

O movimento não é inédito. Um concurso anterior, de €340 milhões, já havia sido declarado deserto após contestações similares. A nova tentativa, com um valor 77% superior, parece repetir os mesmos pontos de atrito, expondo a tensão entre a busca do governo por eficiência e centralização de custos e a realidade operacional e econômica das empresas especializadas. A questão central é se os termos propostos são, de fato, viáveis para quem presta o serviço.

As razões do impasse

As queixas das agências são estruturais e variadas. A Gebta, que representa gigantes como a Viajes El Corte Inglés, questiona a estrutura de custos, que considera impraticável, e aponta para cláusulas que seriam operacionalmente impossíveis de cumprir. Há também preocupações sobre conflitos com a regulação de proteção de dados, seguros e as normas da IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo).

Outras associações, como a UNAV-Fetave, focam em exigências específicas. Uma delas é a obrigatoriedade de que 40% da equipe dedicada ao contrato seja composta por mulheres, cláusula vista como uma violação ao princípio da liberdade de organização empresarial. O ponto mais sensível, contudo, é o modelo econômico: o edital premia a redução de taxas de gestão, mas as agências argumentam que os preços unitários fixados pela Administração não cobrem os custos reais de uma operação complexa, que envolve tecnologia, pessoal qualificado e atendimento contínuo.

Déjà vu e o risco de um novo fracasso

O cenário atual espelha o fracasso da licitação anterior. A resposta do governo espanhol foi aumentar o valor do contrato, mas, ao que tudo indica, sem endereçar as críticas fundamentais do setor. A insistência no mesmo modelo sugere uma desconexão entre os burocratas que desenham o edital e as empresas que precisam executá-lo no dia a dia. Para as agências, não se trata de má vontade, mas de sobrevivência econômica.

Agora, a decisão está nas mãos do Tribunal Administrativo Central de Recursos Contratuais (TACRC), que pode suspender todo o processo. Para o governo, um novo revés significaria mais atrasos na contratação de um serviço essencial. Para o setor de viagens, a batalha judicial é uma defesa contra o que consideram um precedente perigoso de condições contratuais insustentáveis impostas pelo poder público.

Com o prazo para apresentação de propostas se esgotando, a questão que paira no ar não é quem vai ganhar a licitação, mas se será possível para qualquer empresa competir sob as regras atuais. O conflito ilustra uma fricção clássica e crescente entre a lógica de eficiência do setor público e a viabilidade financeira do setor privado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España