A quinta edição do fórum OPENDIR, realizado em Alicante, trouxe para o centro do debate a transformação profunda no papel dos executivos diante de um cenário de volatilidade tecnológica e macroeconômica. Com a presença de cerca de 1.200 profissionais, o encontro destacou que a gestão contemporânea já não se sustenta apenas em decisões técnicas, mas exige uma capacidade de adaptação que equilibre ferramentas digitais com o fator humano.
O evento, organizado pelo Círculo-Directivos de Alicante, reforçou a tese de que o chamado "novo ADN do directivo" é composto por propósito, ação e impacto. Segundo a organização, a velocidade das mudanças exige que líderes desenvolvam competências como empatia e capacidade crítica, elementos que, embora subjetivos, tornam-se diferenciais estratégicos para a resiliência das empresas no longo prazo.
A tecnologia como ferramenta e não como fim
Um dos pontos centrais discutidos foi o papel da inteligência artificial no ambiente corporativo. A análise de Javier Mira, CEO da Facephi, aponta para uma dualidade crítica: enquanto a tecnologia impulsiona a eficiência e a digitalização, ela também atua como um vetor de ameaças, especialmente no aumento de fraudes. A visão predominante entre os participantes é a de que a IA deve ser utilizada como um mecanismo de defesa e otimização, sem substituir o valor diferencial que a experiência humana entrega ao cliente final.
Antonio Romero, diretor da Starbucks España e Portugal, defendeu que a inovação tecnológica deve servir para melhorar o negócio, não para apagar a essência da marca. Essa perspectiva ressoa com a ideia de que a tecnologia, quando mal aplicada, pode alienar o consumidor. A sustentabilidade e a experiência de cliente, portanto, devem ser integradas de forma que a inovação seja um suporte para a estratégia de marca, e não uma substituição do valor que ela representa.
Liderança como arquitetura de propósito
O debate sobre a função do CEO evoluiu para uma visão de "arquiteto da marca". Andrés Martínez, da Deloitte, argumentou que, embora a proposta de valor de uma empresa possa ser flexível, o propósito fundamental de sua existência deve ser estável. Esse alinhamento é o que permite que a organização mantenha o rumo em momentos de crise geopolítica ou mudanças súbitas de mercado, como as destacadas pelo politólogo Pablo Simón ao cobrar reformas estruturais na Europa.
Além do propósito organizacional, a gestão do talento passou a ser vista sob uma nova ótica. Hortensia Roig, da EDEM, enfatizou que a contratação deve focar no potencial de desenvolvimento dos indivíduos, e não apenas no conhecimento técnico acumulado. A liderança por exemplo e a capacidade de antecipação foram apontadas como habilidades fundamentais para inspirar equipes em um ambiente onde o bem-estar e o gerenciamento de energia são, cada vez mais, fatores de produtividade.
O impacto da resiliência e da disciplina
O bem-estar dos líderes e de suas equipes também ocupou espaço na pauta, conectando saúde física e mental com o desempenho profissional. A análise apresentada sugere que fatores como a nutrição e o gerenciamento do estresse são, na verdade, ferramentas de gestão. Quando o líder cuida da sua própria capacidade de concentração e energia, ele está, indiretamente, construindo uma estrutura organizacional mais sólida e capaz de enfrentar períodos de alta pressão.
Juan Carlos Ferrero, trazendo a perspectiva do esporte de alto rendimento, reforçou que a disciplina e o conhecimento profundo das fraquezas e forças são inegociáveis. A transposição dessa lógica para o mundo corporativo sugere que a construção de times motivados depende de uma análise clara dos recursos disponíveis e de uma visão estratégica sobre onde a organização pretende chegar, mantendo a coesão do grupo acima de tendências passageiras.
Desafios para a próxima década
O que permanece em aberto é a velocidade com que as organizações conseguirão internalizar essas mudanças. A necessidade de equilibrar a urgência da inteligência artificial com a preservação da cultura humana cria um dilema que exigirá dos gestores uma atenção redobrada à saúde de suas estruturas internas.
A observação dos próximos ciclos de mercado dirá se o foco em "cabeça e coração" será suficiente para manter a competitividade diante da pressão por resultados imediatos. A transição para esse novo modelo de liderança é um processo contínuo de aprendizado e adaptação.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





