O som seco de uma motosserra cortando galhos secos na aridez argentina ecoa como uma constante atemporal. Misael Saavedra, o madeireiro solitário que, em 2001, definiu um novo paradigma para o cinema híbrido com 'La Libertad', está de volta. Vinte e cinco anos depois, a rotina de Misael permanece inalterada: a cabana de zinco, o preparo metódico da carne de tatu e o silêncio vasto da paisagem. Lisandro Alonso, em um movimento que beira o inusitado, decide transformar seu marco do cinema de arte em uma franquia, lançando 'La Libertad Doble'. O retorno não é uma celebração nostálgica, mas um exercício de observação sobre a persistência do homem diante de um mundo que, embora distante, insiste em invadir seu refúgio.

A utopia da rotina cíclica

A vida de Misael é um ensaio sobre a satisfação encontrada na repetição. Para o protagonista, o isolamento não é uma punição, mas um estado de equilíbrio conquistado através de um controle absoluto sobre o próprio cotidiano. A câmera de Alonso captura essa existência com uma naturalidade que desfaz as fronteiras entre o observador e o observado. O espectador é convidado a testemunhar uma utopia rudimentar, onde o gesto de alimentar o cão ou esculpir madeira com a motosserra carrega a mesma importância existencial. É um retrato de contentamento que desafia as noções urbanas de sucesso e progresso, ancorado na imobilidade de um homem que parece ter encontrado o seu lugar no mundo.

A ruptura da realidade imposta

O idílio é interrompido quando a precariedade do sistema público de saúde bate à porta. Ao buscar atendimento na cidade próxima, Misael descobre que cortes drásticos no financiamento obrigam a família a assumir o cuidado de sua irmã autista, Micaela. A transição de uma vida solitária para o exercício da tutela é tratada com a mesma neutralidade emocional que caracteriza toda a obra de Alonso. A chegada de Micaela não é um drama estridente, mas uma alteração logística que Misael absorve com pragmatismo. A dinâmica entre os dois personagens levanta questões sobre o que constitui uma 'performance' em um filme que se recusa a ser puramente documental ou puramente fictício.

O peso social na tela

Sob a superfície da vida pastoral, 'La Libertad Doble' carrega uma riqueza alegórica sobre a Argentina contemporânea. O filme espelha uma realidade onde as classes trabalhadoras são constantemente sobrecarregadas com novas responsabilidades sociais, compensando a ausência de amparo estatal. A presença de Micaela funciona como uma metáfora tangível para esses encargos, transformando a rotina de Misael em um campo de batalha ético. Alonso, contudo, evita o didatismo, permitindo que o espectador sinta o peso dessa carga sem que o filme se torne um manifesto político direto.

O fim de uma era híbrida

Nos instantes finais da obra, percebe-se que Alonso pode estar sugerindo um encerramento para sua própria exploração do gênero doc-ficção. Após décadas refinando essa linguagem, a circularidade de Misael parece atingir um ponto de exaustão criativa. O cineasta talvez esteja pronto para buscar novos ângulos, deixando para trás o madeireiro que, por tanto tempo, serviu de bússola para sua estética. O que permanece, contudo, é a imagem persistente de uma vida que, apesar de todas as intromissões, insiste em manter sua própria cadência.

O que resta, afinal, quando o cinema tenta capturar a essência da vida sem manipulá-la excessivamente? Talvez a resposta não esteja na conclusão da jornada de Misael, mas na pergunta sobre até onde o cineasta pode ir antes que a realidade, por si só, se torne inalcançável. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Little White Lies