Em um cenário onde a liberdade de expressão encontra novas barreiras, um grupo de livrarias independentes nos Estados Unidos decidiu romper o silêncio. Através de uma carta aberta enviada à Associação Americana de Livreiros e à Associação Americana de Livreiros pela Liberdade de Expressão, essas instituições levantam um "alerta urgente" sobre o memorando presidencial NSPM-7, uma diretiva da administração Trump que equipara o pensamento de esquerda a uma ameaça à segurança nacional. A medida, emitida em setembro de 2025, visa o que o governo define como ideias "esquerdistas" em livros, zines e outras publicações, gerando um temor palpável de que a indústria livreira possa ser alvo de criminalização.
Ameaça à Liberdade de Expressão
O memorando NSPM-7, intitulado "Memorando Presidencial de Segurança Nacional-7: Combatendo o Terrorismo Doméstico e a Violência Política Organizada", busca justificar suas premissas ao agrupar incidentes de violência política, protestos e ativismo sob o guarda-chuva de uma suposta "violência de esquerda" em ascensão. A administração Trump alega, sem apresentar evidências concretas de coordenação ou motivação, que esses eventos seriam "campanhas sofisticadas e organizadas" por "terroristas domésticos" com o objetivo de "atacar instituições democráticas, direitos constitucionais e liberdades americanas fundamentais". O documento unifica essas ações sob uma definição de "antifascismo" que é, ironicamente, equiparada a "anti-americanismo", citando como "fios condutores" o anti-americanismo, anticapitalismo, apoio à derrubada do governo, extremismo em migração, raça e gênero, e hostilidade a "visões americanas tradicionais" sobre família, religião e moralidade. Essa definição excessivamente ampla abre a porta para que o Estado defina qualquer conduta, discurso ou pensamento como uma ameaça à segurança nacional, autorizando ações repressivas.
O Caso Prairieland: Um Prenúncio da Repressão
A preocupação dos livreiros é alimentada por um caso que eles veem como um prenúncio sombrio do que o NSPM-7 pode viabilizar. A carta aberta destaca o julgamento de manifestantes que protestaram em 4 de julho de 2025 contra uma instalação de detenção da Imigração e Alfândega (ICE) no Texas. Embora o protesto seja anterior ao memorando de setembro de 2025, os livreiros argumentam que a natureza da acusação e da condenação antecipa a lógica que a nova diretiva visa formalizar. Nove manifestantes foram presos, e oito deles foram considerados culpados de "fornecer apoio material a terroristas". O "apoio material" incluía a posse de uma "prensa de impressão" para zines anarquistas e a participação em um clube de livros de esquerda. A "prensa de impressão", na realidade, consistia em uma impressora de escritório comum, um cortador de papel e materiais de encadernação. O governo federal argumentou que esses itens, juntamente com o uso de aplicativos de mensagens criptografadas como Signal, bolsas Faraday para bloquear sinais sem fio e vestimenta preta, eram evidências de atividades ligadas a uma ideologia antifa. As sentenças impostas aos manifestantes de Prairieland foram severas, variando de 30 a 100 anos de prisão — um desfecho que os livreiros temem se tornar mais comum sob o novo memorando.
O Papel das Livrarias na Resistência
Diante desse cenário, os livreiros signatários da carta aberta clamam por uma postura mais firme e pública das organizações nacionais. Eles alertam que, com o NSPM-7 agora em vigor, a administração Trump poderá aplicar acusações semelhantes às do caso Prairieland contra membros da Associação Americana de Livreiros (ABA), sob a ampla definição de "extremismo antifa" contida na diretiva. O grupo pede que a ABFE e a ABA analisem detalhadamente o caso Prairieland como um estudo de caso, compreendendo sua conexão com a lógica do NSPM-7 e as implicações para livrarias e seus clientes. A ação estatal é descrita como "ahistórica" e baseada em "ressentimento e impulsos autoritários", mas os livreiros lembram que a própria fundação dos Estados Unidos repousa sobre ideias radicais expressas em publicações. A venda e disseminação de panfletos, zines e livros, independentemente de seu conteúdo ideológico, sempre foram uma forma essencial de expressão na cultura americana. A postura dessas livrarias independentes ressalta o papel vital que elas desempenham não apenas como espaços de comércio, mas como bastiões da liberdade de pensamento e expressão em tempos de crescente autoritarismo.
Perguntas em Aberto
As ações tomadas pela administração Trump através do memorando NSPM-7 levantam questões cruciais sobre o futuro da liberdade de expressão nos Estados Unidos. Como as organizações de livreiros responderão a este chamado por ação pública e defesa legal? De que forma a indústria livreira pode se organizar para combater o que percebe como uma ameaça direta à sua existência e ao seu propósito fundamental? A sociedade civil, em geral, está ciente da amplitude e das implicações deste memorando para a livre circulação de ideias e para o debate democrático? A história americana é rica em exemplos de como publicações consideradas radicais por seus tempos acabaram moldando o progresso social. Resta saber se a atual conjuntura permitirá que essa tradição continue florescendo, ou se o medo e a repressão prevalecerão, silenciando vozes e criminalizando o pensamento.
O chamado dos livreiros é um convite à reflexão sobre os limites da autoridade estatal e a importância de defender os espaços onde as ideias podem florescer livremente, mesmo aquelas que desafiam o status quo. A luta pela liberdade de expressão, como demonstrado por esses resistentes livreiros, é uma batalha contínua que exige vigilância e ação. A questão que permanece é se a sociedade americana está disposta a defender esse direito fundamental antes que seja tarde demais.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





