A Rússia tem mirado a infraestrutura editorial da Ucrânia, destruindo milhões de livros em um mês, o que representa um terço da produção anual do país. Nesse contexto, a seleção de obras literárias ucranianas em inglês ou traduzidas para o idioma ganha um peso especial. Compilada pela escritora e jornalista Sasha Dovzhyk, a lista de 10 leituras essenciais serve como um portal para a rica tradição literária ucraniana e sua incessante história de resistência, muitas vezes ofuscada por impérios que buscaram a sua anulação.
Esses textos oferecem um vislumbre do passado e do presente da Ucrânia, suas experimentações literárias e sua diversidade geográfica e cultural. Vão desde o feminismo de virada de século e a poesia escrita em trincheiras até testemunhos colhidos de manuscritos inacabados e ficção pós-moderna que narra o desmoronamento de um império. Ler essas obras é, para Dovzhyk, um ato de restauração da justiça para uma nação que há muito luta pelo direito de contar suas próprias histórias em seus próprios termos.
Memória e Resistência em Tempos de Guerra
A literatura ucraniana, como demonstrado por esta curadoria, é intrinsecamente ligada à sua história de luta pela soberania e pela preservação de sua identidade cultural. Desde a perseguição da língua ucraniana pelo Império Russo, passando pelas purgas do regime soviético, até os conflitos mais recentes, os escritores ucranianos têm usado suas palavras como ferramenta de resistência e afirmação.
Obras como "Cassandra", de Lesia Ukrainka, uma escritora do início do século XX que abordou temas canônicos sob uma perspectiva feminista e anticolonial, ganham nova vida através de traduções como a de Nina Murray. "Looking at Women Looking at War", de Victoria Amelina, é um testemunho pungente de uma romancista que se tornou pesquisadora de crimes de guerra, documentando a resiliência das mulheres em meio ao conflito, mesmo que a autora não tenha sobrevivido para concluir sua obra, morta por um míssil russo em 2023.
Narrativas que Desafiam o Poder Imperial
A lista também inclui "Dr. Leonardo’s Journey to Sloboda Switzerland with His Future Lover, the Beautiful Alcesta", de Maik Yohansen, um romance modernista que, apesar de sua leveza lúdica, ressoa com a devastação atual das terras ucranianas. "Cecil the Lion Had to Die", de Olena Stiazhkina, professora de história e escritora forçada a fugir de Donetsk, desafia estereótipos sobre o leste da Ucrânia, explorando sua complexa história multiétnica e os traumas da ocupação.
"Ukrainian Sunrise: Stories of the Donetsk and Luhansk Regions from the Early 2000s", de Kateryna Zarembo, complementa a visão sobre o leste ucraniano, recuperando as comunidades e escritores patrióticos que mantiveram viva a identidade ucraniana. "The Moscoviad", de Yuri Andrukhovych, oferece uma visão de Moscou sob a ótica de um sujeito colonizado, capturando o colapso do Império Soviético em sua forma, trama e linguagem. Essas narrativas demonstram a capacidade da literatura de resistir e documentar, mesmo sob a mais severa opressão.
A Voz Contemporânea no Front e na Literatura
Obras mais recentes refletem o impacto direto do conflito contemporâneo. "Voroshilovgrad", de Serhiy Zhadan, embora escrito antes da guerra em larga escala, antecipa o clima de violência e a defesa territorial, tornando-se um marco na cristalização de uma nova identidade ucraniana na fronteira. "Ordinary People Don’t Carry Machine Guns", de Artem Chapeye, é um poderoso memoir que documenta os primeiros anos da invasão russa, explorando as contradições de um intelectual pacifista que se vê compelido a defender seu país com armas.
A poesia também ocupa um lugar de destaque. "We Were Here", de Artur Dron, um jovem poeta que serve na linha de frente desde 2022, ilustra a força da forma poética em condições extremas, servindo como testemunho da resiliência e da profundidade da experiência ucraniana. A coleção, ilustrada com desenhos infantis, questiona o papel da poesia em tempos de guerra, respondendo com a própria existência do livro como um ato de preservação da memória e da voz.
Legado Histórico e Perspectivas Futuras
Para contextualizar essa rica tapeçaria literária, "The Gates of Europe: A History of Ukraine", de Serhii Plokhy, oferece uma visão histórica essencial. O livro traça a trajetória da Ucrânia como um ponto estratégico cobiçado por impérios ao longo dos séculos, desde os romanos e otomanos até o Terceiro Reich e a União Soviética. Plokhy narra essa história através das figuras que tentaram reivindicar ou resistir ao controle sobre o território ucraniano, moldando a identidade nacional.
Essas obras, em sua diversidade de gêneros e perspectivas, não apenas iluminam a cultura e a história ucranianas, mas também servem como um ato de resistência contra as tentativas de apagamento. Elas reafirmam o direito da Ucrânia de narrar sua própria história, um direito conquistado a duras penas e que continua a ser defendido, tanto nas trincheiras quanto nas páginas dos livros.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





