O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu homólogo chinês, Xi Jinping, defenderam em uma conversa telefônica no domingo a aceleração das negociações para um acordo comercial entre o Mercosul e a China. A informação, divulgada em nota pelo governo brasileiro, formaliza um movimento que vinha sendo telegrafado pela diplomacia brasileira nos últimos meses.

Mais do que uma simples negociação comercial, a iniciativa representa um lance estratégico de peso no tabuleiro geopolítico. Em um momento em que o acordo entre Mercosul e União Europeia patina há anos, travado por exigências ambientais e resistências protecionistas de ambos os lados, a aproximação com Pequim surge como uma alternativa pragmática e, potencialmente, mais veloz.

Mais que commodities, uma parceria estratégica

A conversa de mais de uma hora entre os líderes não se limitou ao comércio. Segundo a nota oficial, a pauta incluiu a ampliação da cooperação em áreas de alta tecnologia, como inteligência artificial, satélites, processamento de minerais críticos e fertilizantes. Para o Brasil, a sinalização é clara: a parceria com a China não deve se restringir à exportação de commodities, mas avançar para setores que agregam valor e conhecimento, alinhados ao plano de neoindustrialização do governo.

A leitura aqui é que o Brasil busca usar a rivalidade entre as grandes potências a seu favor. Ao acelerar com a China, o governo Lula não apenas busca destravar o potencial econômico do maior parceiro comercial do país, mas também envia uma mensagem a Bruxelas e Washington de que existem outras portas abertas para o Mercosul. O apoio declarado de Xi à “soberania e independência” do Brasil, reportado pela agência chinesa Xinhua, reforça essa percepção de alinhamento.

Os desafios da governança global e regional

A discussão também escalou para a arena da governança global. Ambos os presidentes criticaram a incapacidade do Conselho de Segurança da ONU em responder às crises no Oriente Médio e na Ucrânia, um ponto de convergência antigo entre as diplomacias dos dois países. A defesa de um papel para o "Grupo de Amigos da Paz" na questão ucraniana é mais um sinal da tentativa de construir mecanismos alternativos aos fóruns tradicionais.

Internamente, no entanto, o caminho não é livre de obstáculos. Acelerar um acordo com a China exigirá um consenso complexo dentro do Mercosul, onde países como o Paraguai mantêm relações com Taiwan e a Argentina vive um momento de realinhamento com os Estados Unidos. A proposta de Lula e Xi é um ponto de partida, mas sua execução dependerá da capacidade do Brasil de articular e liderar seus vizinhos em uma nova direção estratégica.

A aposta está na mesa. Resta saber se os sócios do Mercosul e as potências ocidentais irão acompanhar o lance ou tentar bloqueá-lo. O futuro do bloco sul-americano pode depender da resposta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times