O presidente Luiz Inácio Lula da Silva traçou, em um palco inusitado, os contornos de sua doutrina para a política externa brasileira na era da nova rivalidade entre Estados Unidos e China. Durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Niterói, Lula foi direto: não é “louco” de brigar com as duas maiores potências globais.

A declaração, reportada pelo Money Times, vai além da retórica diplomática. Ao afirmar que prefere "derrotá-los estudando, investindo e pesquisando mais do que eles", o presidente enquadra a soberania nacional não como uma questão de alinhamento militar ou ideológico, mas como uma corrida por capacidade tecnológica. É o reconhecimento pragmático de que, sem o poderio bélico e financeiro dos rivais, o caminho para a relevância passa pelo conhecimento.

A Terceira Via Tecnológica

A escolha do fórum — a principal cúpula científica do país — é a mensagem. Lula não discursava para generais ou diplomatas, mas para pesquisadores. A frase "Eu não tenho os aviões, os tanques, as bombas e o dinheiro que eles têm" é uma admissão crua das assimetrias de poder. A estratégia que se desenha, portanto, não é de enfrentamento, mas de contorno: se o Brasil não pode competir no campo de batalha tradicional, que o faça nos laboratórios e centros de pesquisa.

Essa visão ressoa com a longa tradição do "não-alinhamento ativo" da diplomacia brasileira, mas com uma atualização para o século 21. A disputa geopolítica contemporânea é, em sua essência, uma disputa por supremacia tecnológica, seja em semicondutores, inteligência artificial ou biotecnologia. A aposta de Lula é que, ao focar em desenvolver suas próprias capacidades, o Brasil pode garantir autonomia estratégica sem precisar escolher um lado no tabuleiro global.

O desafio, contudo, é monumental. A promessa de "investir mais do que eles" é mais uma figura de retórica do que uma meta factível, dadas as ordens de grandeza que separam os orçamentos de C&T do Brasil e das superpotências. A questão que fica é se a sinalização política será acompanhada de recursos consistentes e políticas de longo prazo capazes de transformar a ambição em realidade.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times