A filantropa MacKenzie Scott, que doou mais de US$ 7 bilhões para cerca de 120 organizações no último ano, tornou-se uma ausência notável no ranking "Philanthropy 50", organizado pelo Chronicle of Philanthropy. O montante, distribuído por meio de sua organização Yield Giving, eclipsa as doações vitalícias de seu ex-marido, Jeff Bezos. No entanto, a metodologia do ranking exige transparência detalhada sobre a origem e o destino dos fundos, informações que Scott e sua equipe optam por não divulgar publicamente.

A exclusão levanta questões sobre os critérios de reconhecimento no setor filantrópico. Enquanto a Forbes incluiu Scott em suas listas de grandes doadores — estimando que ela já tenha repassado ao menos 40% de seu patrimônio desde 2020 —, o Chronicle manteve o veto devido à falta de comprovação formal. A leitura aqui é que o mercado de doações tradicionais ainda luta para processar um modelo que prioriza o impacto direto em vez da visibilidade institucional ou da prestação de contas burocrática.

O modelo de discrição radical

A abordagem de Scott é marcada pela ausência de busca por holofotes. Ela raramente concede entrevistas e não exige press releases sobre os recursos repassados. Esse silêncio é parte central de sua filosofia: ela se vê como um elemento de um ecossistema maior, buscando inspirar a generosidade alheia sem centralizar o protagonismo. Para organizações receptoras, como a Housing Trust Silicon Valley, essa postura é um alívio em relação aos processos tradicionais de captação.

O segredo de sua operação reside no fato de que a Yield Giving frequentemente entra em contato com as instituições, e não o inverso. O processo de due diligence é rigoroso, exigindo planos estratégicos e dados financeiros, mas, uma vez concluída a doação, o controle é transferido integralmente. Essa autonomia permite que as entidades apliquem os recursos de forma inovadora e rápida, sem as amarras burocráticas impostas por grandes fundações que exigem relatórios constantes de desempenho.

A tensão entre metodologia e impacto

Críticos da exclusão, como Hans Peter Schmitz, professor na North Carolina State University, consideram a ausência bizarra. Se os critérios do Chronicle fossem ajustados para acomodar o estilo de Scott, ela ocuparia o primeiro lugar do ranking com folga. O impasse revela um choque cultural: o setor acadêmico e jornalístico de filantropia depende de dados estruturados para validar o status de um doador, enquanto Scott opera em uma lógica de "contribuição não transacional".

Essa dinâmica cria um paradoxo onde a maior doadora individual da atualidade parece invisível para certos medidores de mercado. A falta de transparência, embora intencional e alinhada a seus valores, dificulta o rastreamento estatístico que baliza as métricas de poder e influência no terceiro setor. Para os reguladores e o ecossistema de ONGs, o desafio é equilibrar a necessidade de transparência com a eficácia do capital filantrópico que, como Scott defende, pode ser mais potente quando desvinculado de exigências transacionais.

Implicações para o ecossistema de doadores

O caso Scott força uma reflexão sobre o que define um "grande doador" no século XXI. A transição de um modelo baseado em fundações familiares com forte apelo de marca para um modelo de doação ágil e sem restrições altera o poder de barganha das organizações. Se outras fortunas seguirem o exemplo de Scott, os rankings de filantropia precisarão evoluir para capturar o impacto real em vez de apenas o volume reportado voluntariamente.

Para o mercado brasileiro, que vê um crescimento constante no filantropismo de alto patrimônio, a lição é clara: a eficiência da doação nem sempre caminha ao lado da publicidade. O modelo de Scott sugere que a confiança na competência da ponta (a organização que recebe) pode ser uma estratégia superior à fiscalização centralizada, especialmente em causas de impacto social onde o tempo de resposta é um ativo crítico.

Perspectivas e o futuro da transparência

O que permanece incerto é se a pressão por transparência forçará uma mudança na estratégia da Yield Giving ou se o mercado de rankings acabará por adaptar seus critérios. Enquanto Scott mantiver sua postura, a discrepância entre sua relevância real e sua presença em listas será uma constante, servindo como termômetro da tensão entre o velho e o novo filantropismo.

É provável que a trajetória das ações da Amazon continue a sustentar a capacidade de doação de Scott, mantendo-a como uma força desproporcional no setor. O debate sobre a eficácia de sua abordagem, que ela mesma descreve como um esforço para transformar passivos imaginários em ativos, continuará a ser acompanhado de perto tanto por acadêmicos quanto por gestores de organizações sem fins lucrativos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune