O escritório de arquitetura MAD concluiu o projeto do Tengyun Center, uma nova peça fundamental na expansão da sede da Tencent em Shenzhen, na China. Com 72 mil metros quadrados, o complexo é composto por três volumes curvos interconectados e duas torres de escritórios, consolidando uma proposta que busca redefinir a relação entre infraestrutura corporativa e o tecido urbano da região de Qianhai e Da Chan Bay.

Ao contrário dos tradicionais centros de comando das gigantes de tecnologia, o projeto foi concebido como um campus aberto. A estratégia central do MAD consistiu em elevar os três volumes principais a 8,6 metros do solo, utilizando dez núcleos estruturais. Essa decisão arquitetônica permite que o espaço térreo permaneça livre, funcionando como uma extensão da infraestrutura pública e oferecendo vistas desimpedidas para a baía.

A filosofia do espaço suspenso

Para o fundador do MAD, Ma Yansong, a elevação das estruturas não é um mero exercício estético, mas uma necessidade espacial. A ideia de "flutuação" serve como um mecanismo para mitigar a natureza isolada dos complexos corporativos, permitindo que o edifício se integre à rotina urbana da cidade. Ao liberar o solo, a Tencent propõe que a arquitetura corporativa deixe de ser um ícone fechado para se tornar um elemento de convivência pública.

O projeto também incorpora elementos de sustentabilidade e integração paisagística. O paisagismo no nível do solo preserva manguezais nativos e cria caminhos sombreados, estabelecendo uma transição suave entre o ambiente construído e a costa. A disposição dos volumes, que diminuem em altura à medida que se aproximam da água, demonstra uma preocupação em não sobrecarregar a escala da orla, mantendo uma harmonia visual com a geografia local.

Dinâmicas de trabalho e transparência

Internamente, o Tengyun Center prioriza a democratização do espaço. As plantas foram desenhadas com estruturas de longo alcance para evitar obstruções, otimizando a iluminação natural através de átrios cobertos por claraboias semiabertas. A lógica de ocupação inverte a hierarquia tradicional de escritórios: as vistas privilegiadas para o mar são tratadas como um ativo coletivo, acessível a todos os funcionários, independentemente de sua posição na hierarquia corporativa.

Essa abordagem reflete uma mudança nos incentivos de design para empresas de tecnologia. O ambiente de trabalho deixa de ser um espaço estritamente funcional para se tornar um ecossistema de bem-estar. A inclusão de uma edificação adicional em formato de gota e espaços flexíveis para exposições no edifício sul sugere que a Tencent busca atrair talentos e promover interações sociais através de um campus que também funciona como um centro cultural e de eventos.

Tensões na arquitetura corporativa

O projeto levanta questões sobre o papel das Big Techs na ocupação das metrópoles globais. Enquanto o MAD busca uma integração com a cidade, a escala massiva do complexo, que inclui ainda torres residenciais desenvolvidas pelo escritório MVRDV, reforça o status dessas empresas como gestoras de minicidades. A tensão reside em equilibrar a abertura pública prometida com a segurança e a privacidade necessárias para a operação da Tencent.

Para o ecossistema brasileiro, o caso ilustra um modelo de ocupação onde o setor privado assume o custo da urbanização. A viabilidade de projetos dessa magnitude depende não apenas de capital, mas de uma regulação urbana que permita essa flexibilidade de uso do solo, algo que ainda é um desafio em grandes capitais brasileiras, onde o zoneamento frequentemente impõe barreiras rígidas para a integração de áreas corporativas com o público.

Perspectivas de ocupação

O sucesso dessa infraestrutura será medido pela capacidade real de uso público do térreo nos próximos anos. A eficácia da integração entre o campus e o cotidiano de Shenzhen dependerá de como a Tencent gerenciará o fluxo de pessoas em um espaço que é, simultaneamente, sede de uma gigante global e uma área de lazer urbana.

O mercado de arquitetura e o setor de tecnologia continuarão observando se esse modelo de "campus suspenso" se tornará um padrão ou se permanecerá como uma exceção estética em um setor que ainda prioriza, em sua maioria, o controle e a eficiência logística sobre a permeabilidade social.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen