Imagine uma cidade onde o transporte público é impecável, a vida noturna vai além de bares e inclui centros de entretenimento 24 horas, e a felicidade é uma experiência cotidiana. Agora, adicione a isso um forte senso de comunidade, a beleza de um centro histórico acessível e um custo de vida que permite consumir cultura. Essa não é uma utopia, mas um mosaico das qualidades que a Geração Z busca, segundo um recente levantamento da Time Out em parceria com a Intrepid Travel.

O estudo mapeou as melhores cidades do mundo para os nascidos entre 1997 e 2012, e os resultados apontam para uma redefinição silenciosa do que constitui uma vida urbana desejável. Tóquio lidera a lista, não por seu gigantismo corporativo, mas por sua mobilidade e lazer. Porto, em segundo, é celebrada pela comunidade e custo. O Rio de Janeiro aparece em 18º lugar, validando a importância da natureza e da sociabilidade para essa geração.

O novo urbanismo do bem-estar

As prioridades que emergem da pesquisa — facilidade para caminhar, acesso à natureza, vida social e custo acessível — representam um contraponto direto ao modelo de cidade do século XX, construída em torno do automóvel e do distrito de negócios. Para a Geração Z, a qualidade de vida não é um benefício a ser desfrutado na aposentadoria, mas uma premissa para a escolha de onde viver e trabalhar. A cidade deixa de ser apenas um pano de fundo para a carreira e se torna o próprio palco da vida.

Essa mentalidade, acelerada pela flexibilização do trabalho pós-pandemia, valoriza os chamados “terceiros espaços”: parques, cafés, centros culturais e áreas de convivência que fomentam a conexão humana. A lógica é simples: se o trabalho pode ser remoto, o lar precisa ser um lugar que ofereça mais do que um endereço. Precisa oferecer uma comunidade. Cidades como Berlim, elogiada pela cultura alternativa, e Valência, pelo incentivo a atividades ao ar livre, exemplificam essa nova demanda por um urbanismo mais humano e integrado.

Do global ao local: Tóquio, Porto e Rio

O ranking é um estudo de contrastes. De um lado, a eficiência e a densidade cultural de megacidades como Tóquio, Xangai e Nova York, que continuam a atrair pela vibração e pelas oportunidades. Do outro, o apelo de cidades de médio porte como Porto e Edimburgo, que oferecem um ritmo mais cadenciado, forte identidade local e um senso de pertencimento que, segundo a pesquisa, é altamente valorizado. Em Porto, 100% dos entrevistados avaliaram positivamente o sentimento de comunidade.

Nesse contexto, a presença do Rio de Janeiro na lista é sintomática. Embora enfrente desafios estruturais não abordados na pesquisa, a cidade personifica a combinação de natureza exuberante, vida ao ar livre e calor humano que a Geração Z parece buscar. Segundo o levantamento, 79% dos moradores entrevistados no Rio disseram sentir um senso de comunidade, um ativo intangível que se torna cada vez mais um diferencial competitivo entre as metrópoles globais.

O que o mapa urbano da Geração Z nos diz não é apenas sobre as cidades que estão em alta, mas sobre aquelas que correm o risco de se tornar obsoletas. Enquanto os jovens escolhem seus destinos com base na caminhabilidade, na comunidade e no acesso à cultura, as metrópoles que continuarem a apostar apenas na densidade de escritórios podem descobrir que construíram um futuro para uma geração que já se mudou.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney