Madeira extraída da Floresta Nacional de Saracá-Taquera, no Pará, chegou a obras de infraestrutura na Holanda apesar de um histórico de irregularidades ambientais envolvendo a empresa fornecedora, a Samise Indústria, Comércio e Exportação Ltda. A denúncia consta em relatório da ONG britânica Earthsight, divulgado nesta segunda-feira, que detalha como o material contornou barreiras de fiscalização.

A investigação, realizada em conjunto com o Center for Climate Crime Analysis, aponta que a madeira — especificamente o angelim-vermelho — foi comercializada por importadoras europeias que confiavam em selos de certificação. O caso levanta questionamentos sobre a eficácia dos mecanismos de controle que deveriam impedir a entrada de produtos ilegais no mercado da União Europeia.

Fragilidades na certificação florestal

O ponto central da análise é a persistência da certificação do Forest Stewardship Council (FSC) mantida pela Samise desde 2016. Mesmo enquanto a empresa acumulava multas e suspensões operacionais por indícios de fraude, como a adulteração de identificação de toras, o selo permaneceu vigente até março de 2026. A situação ilustra um descompasso entre a realidade operacional de campo e a chancela de sustentabilidade.

A dependência excessiva de certificados ambientais por parte das importadoras europeias é apontada como o principal elo fraco da cadeia. Ao tratarem o selo como garantia absoluta, empresas como a Hoogendoorn Hout e a Van den Berg Houtgroep teriam deixado de realizar auditorias independentes sobre a origem real do produto, permitindo que madeira sob suspeita circulasse internacionalmente.

Mecanismos de controle e o papel da legislação

A legislação vigente, o Regulamento da União Europeia sobre Madeira (EUTR), impõe aos importadores o dever de diligência para verificar a legalidade da cadeia. No entanto, o caso da Samise demonstra que a implementação prática dessas normas tem sido insuficiente. A empresa, que devia mais de R$ 2,2 milhões em taxas de concessão e multas, continuou operando em períodos de suspensão, o que sugere uma falha de comunicação entre os órgãos brasileiros e o mercado internacional.

O Serviço Florestal Brasileiro (SFB) acabou extinguindo o contrato da Samise, reconhecendo o descumprimento sistemático dos acordos. Contudo, o dano ambiental e a entrada da madeira irregular no exterior já haviam sido consolidados, evidenciando que a punição administrativa ocorre frequentemente após o impacto comercial e ecológico.

Implicações para o mercado global

Para os stakeholders, o caso serve como um alerta sobre a necessidade de maior rigor na diligência corporativa. Reguladores europeus preparam a entrada em vigor de novas normas antidesmatamento, previstas para dezembro de 2026, que exigirão controles mais robustos sobre a origem de produtos florestais. O setor privado, por sua vez, enfrenta a pressão por transparência total, sob pena de sanções severas.

No cenário brasileiro, o episódio reforça a complexidade do monitoramento de concessões florestais. A integração de dados de satélite com registros judiciais e fiscais torna-se indispensável para que o comércio exterior de madeira não seja confundido com a exploração predatória, protegendo a reputação do setor madeireiro nacional que atua em conformidade com as leis vigentes.

Perspectivas e desafios futuros

O que permanece incerto é se a nova regulamentação europeia será capaz de mitigar essas falhas estruturais ou se novos mecanismos de fraude surgirão para contornar as exigências. A transição para uma cadeia de suprimentos verificável exige um esforço conjunto entre governos e o setor privado.

O monitoramento contínuo das cadeias de suprimentos e a revisão dos critérios de certificação serão os pilares para que o mercado europeu consiga, de fato, barrar o desmatamento ilegal. A forma como as empresas responderão a esse escrutínio definirá o futuro das exportações de madeira tropical brasileira.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney