A Comissão Insular de Patrimônio Histórico do Consell de Mallorca aprovou o início de um expediente para declarar 33 refúgios antiaéreos da Guerra Civil Espanhola como Bens Catalogados. A decisão abrange estruturas localizadas nos municípios de Palma, Marratxí, Sóller e Inca, marcando o primeiro passo concreto para a criação de um catálogo insular dedicado a esses espaços de defesa passiva.

Segundo reportagem da Forbes España, a medida busca não apenas a preservação física das estruturas, mas a valorização do seu significado histórico e arqueológico. O presidente do Consell de Mallorca, Llorenç Galmés, classificou os locais como testemunhos únicos da história da ilha, enquanto a conselheira de Cultura e Patrimônio, Antònia Roca, reforçou que o objetivo final é abrir esses espaços à visitação pública.

O contexto da defesa passiva

Os refúgios em processo de catalogação foram erguidos majoritariamente após fevereiro de 1937, período em que a Jefatura de la Defensa Pasiva Antiaérea das Baleares foi estabelecida. Essas construções representam uma resposta direta às necessidades de proteção da população civil durante o conflito, revelando um planejamento urbano e militar focado na sobrevivência sob ataques aéreos.

A diversidade tipológica é um dos aspectos mais notáveis dessas estruturas. O inventário inclui desde galerias subterrâneas escavadas como minas até espaços integrados às muralhas históricas da cidade e galerias horizontais que aproveitam o relevo natural. A maioria desses abrigos encontra-se a uma profundidade mínima de seis metros, evidenciando o rigor técnico aplicado na época.

Mecanismos de proteção e desafios técnicos

A catalogação é vista como um instrumento essencial, dado que a perda de grande parte dos arquivos oficiais da Defesa Pasiva tornou a localização e o estudo sistemático desses locais uma tarefa complexa. Sem registros documentais completos, a identificação física no terreno tornou-se a principal fonte de dados para os pesquisadores e órgãos de patrimônio.

O processo de incoação aprovado agora abre um período de audiência pública e consulta aos municípios envolvidos. Uma vez concluída essa etapa, a Comissão Insular poderá emitir a resolução definitiva, conferindo aos 33 refúgios o mais alto nível de proteção patrimonial previsto pela legislação balear, o que impede alterações arbitrárias e garante a conservação da integridade estrutural.

Implicações para o patrimônio e a memória

A iniciativa coloca Mallorca em um movimento crescente de resgate de memórias traumáticas através da arquitetura. Ao oficializar a proteção, o governo local transforma o que antes eram ruínas esquecidas em ativos de memória histórica, permitindo que a sociedade compreenda o impacto do conflito no cotidiano urbano de meados do século XX.

Para o ecossistema local, a decisão impõe uma nova responsabilidade sobre a gestão de espaços públicos em cidades como Palma e Sóller. A integração desses refúgios ao tecido urbano contemporâneo, onde muitos estão situados sob vias movimentadas ou infraestruturas ferroviárias, levanta questões sobre como conciliar a preservação histórica com a modernização da infraestrutura urbana.

Perguntas em aberto e o futuro da visitação

O que permanece incerto é o cronograma de adaptação desses locais para a visitação pública. A segurança estrutural e a acessibilidade são desafios técnicos significativos, especialmente considerando que muitos desses refúgios foram construídos em condições de emergência e com materiais de época que podem exigir intervenções complexas de consolidação.

Além disso, o sucesso deste catálogo pode incentivar a descoberta de novas estruturas ainda não identificadas. Observadores do setor cultural acompanharão de perto o desdobramento da abertura ao público, avaliando se a iniciativa servirá como modelo para outras regiões espanholas que ainda possuem um vasto patrimônio de guerra não inventariado.

A catalogação desses 33 refúgios antiaéreos em Mallorca não é apenas um ato administrativo de proteção, mas um movimento que redefine a relação da ilha com seu passado. Ao conferir status legal a essas construções, o governo insular garante que a memória do conflito permaneça acessível às futuras gerações, transformando o silêncio das galerias subterrâneas em um diálogo necessário sobre a história europeia.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España