Enquanto desenha sapatos que se tornarão objeto de desejo, Marina Larroudé está, em paralelo, vasculhando a internet por algo antigo. A cofundadora da Larroudé, marca de calçados que leva seu nome, não se interessa pelos últimos lançamentos de luxo. Seu território de caça é o TheRealReal, plataforma de revenda onde ela mantém alertas para blazers Chanel vintage que entram em promoção. A prática diz muito sobre sua filosofia: a moda é um repertório pessoal, não uma corrida de tendências.
Essa visão foi lapidada ao longo de uma carreira que começou nas redações da Condé Nast e chegou à diretoria de moda da icônica Barneys. Há quase seis anos, na sala de jantar de sua casa, ela e o marido, Ricardo, fundaram a Larroudé. A empresa cresceu, hoje com mais de 700 funcionários e uma fábrica no Brasil, e seus sapatos chegaram aos pés de celebridades como Taylor Swift. A transição de executiva para fundadora, no entanto, reformatou seu guarda-roupa. “Sendo fundadora, sou mais prática”, disse ela ao Business Insider. Os saltos diários deram lugar a sapatos baixos, mas a personalidade permaneceu inegociável.
Um manifesto em technicolor
O guarda-roupa de Larroudé é uma afronta deliberada à paleta de cores sóbria que domina o mundo corporativo. “Eu só uso preto algumas vezes por ano”, afirma. Para ela, que espera que sua roupa comunique que ela “tem uma personalidade”, cores vibrantes e combinações ousadas são a norma. Shorts laranja, jaquetas amarelas para ir ao escritório, vestidos pink para a noite. A recusa em se camuflar é uma escolha estratégica. Em um ambiente de negócios onde a conformidade visual muitas vezes é confundida com seriedade, seu estilo funciona como um manifesto.
A fórmula é equilibrar o prático com o especial. Uma calça jeans e uma camiseta básica podem ser a base, mas o conjunto é elevado por um blazer coberto de cristais ou um sapato arquitetônico. É uma forma de navegar as demandas do dia a dia de uma empresa em crescimento sem abdicar da identidade que a posicionou no universo da moda. “Não gosto de me misturar”, diz ela. A frase, aparentemente sobre estilo, ecoa a mentalidade necessária para construir uma marca do zero em um mercado competitivo.
Do salto ao chão de fábrica
A empresária não tem interesse em seguir tendências passageiras, preferindo garimpar peças com história, como um vestido Christopher Kane do início dos anos 2000, adquirido por uma fração do preço original. Essa curadoria afetiva se estende à sua própria marca. A filosofia da Larroudé nasceu, em parte, da observação de pessoas que compravam itens caros apenas para guardá-los para uma “ocasião especial” que nunca chegava. Para Marina, a moda é para ser vivida, usada e até gasta.
Seu pragmatismo de fundadora, que a faz percorrer o escritório de sapatos baixos, não diminui o impacto de seu visual. É a prova de que praticidade não precisa ser sinônimo de monotonia. Ela conta que usa tudo o que tem no armário, sem poupar nada. “Mesmo que meus filhos me digam que é inapropriado para uma manhã de segunda-feira. Eu não me importo. Vou usar e me divertir”, diz ela. A lição não é sobre moda, mas sobre autoria. Não espere por uma festa para ser quem você é.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





