A promessa do trabalho autônomo é a liberdade. Ser sua própria chefe, definir seus horários, capturar todo o valor gerado. É um ideal poderoso, que alimenta a crescente legião de profissionais 'PJ', freelancers e empreendedores individuais, tanto no Brasil quanto na Europa. A autonomia, no entanto, parece não ser suficiente para romper com estruturas de desigualdade profundamente arraigadas. Um relatório vindo da Espanha serve como um sóbrio lembrete de que, mesmo fora do escritório corporativo, o teto de vidro pode não ser de vidro, mas continua existindo.

Segundo um levantamento da União de Associações de Trabalhadores Autônomos e Empreendedores (Uatae), as mulheres que trabalham por conta própria na Espanha faturam, em média, 30% menos que seus pares masculinos. A disparidade não é um evento isolado na vida profissional; ela se projeta no futuro, resultando em uma diferença de 41% no valor de suas aposentadorias. O diagnóstico da Uatae, divulgado pela Forbes España, aponta para velhos conhecidos como causas do problema.

O peso invisível do cuidado

A desigualdade, argumenta a entidade, não está na planilha de precificação de um projeto, mas nas horas que uma profissional autônoma deixa de dedicar ao seu negócio para se ocupar com o trabalho não remunerado de cuidado — com filhos, pais idosos, a gestão da casa. Essa responsabilidade, que ainda recai desproporcionalmente sobre as mulheres, limita o tempo disponível para prospecção, execução e networking, impactando diretamente a geração de receita. Soma-se a isso a maior dificuldade de acesso a linhas de financiamento e a concentração de mulheres em setores historicamente de menor rentabilidade.

A organização espanhola faz um apelo por estatísticas mais detalhadas e segregadas por gênero, um passo fundamental para tirar o problema da invisibilidade e desenhar políticas públicas eficazes. O debate que emerge da Espanha ecoa no ecossistema brasileiro, onde a 'pejotização' avança como sinônimo de modernidade. A questão que fica é se essa nova configuração do trabalho está, de fato, criando um campo de jogo mais nivelado ou apenas transferindo desigualdades seculares do regime CLT para o CNPJ.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España