Em um artigo recente no New York Times, Marissa Mayer, ex-CEO do Yahoo e fundadora de um novo aplicativo de chatbot, protagonizou um momento que rapidamente viralizou: a dificuldade em descrever três qualidades de sua própria filha de dez anos, recorrendo a uma inteligência artificial para tal tarefa. A IA, segundo Mayer, entregou uma resposta perfeita, listando a menina como empática, criativa e amante de animais. Embora a anedota em si seja criticada pela delegação de funções cognitivas básicas a algoritmos, o que realmente ressoa é a persistência de Mayer em desconsiderar a importância do gênero na indústria de tecnologia — um discurso que ela mantém há mais de uma década.
O eco de um discurso ultrapassado
Mayer tem sido uma figura proeminente no Vale do Silício, especialmente notada por ter sido a primeira CEO de uma empresa Fortune 500 a engravidar. No entanto, seu discurso sobre gênero parece ter estagnado. Em 2015, ela declarou ao Re/code que "nunca joga a carta do gênero" e que a tecnologia, por sua natureza acelerada, não é um setor onde o gênero é relevante. Essa perspectiva, que ignora décadas de experiências de mulheres na força de trabalho, reaparece em suas declarações mais recentes. Ao ser questionada sobre vieses em modelos de IA, ela aponta para executivas como Fei-Fei Li como prova de que o problema não existe, em vez de reconhecer os estudos extensivos que comprovam o contrário. Para Mayer, a paixão é uma "força neutralizadora de gênero", sugerindo que o entusiasmo por algo anula as barreiras estruturais. Essa visão contrasta fortemente com a realidade de mulheres na tecnologia, que enfrentam disparidades salariais, menor acesso a financiamento para startups e um ambiente muitas vezes hostil.
A realidade das mulheres na tecnologia em 2026
A narrativa de Mayer de que "gênero desaparece no fundo" falha em capturar as estatísticas que persistem. Segundo pesquisas do setor, uma parcela significativa das mulheres deixa a indústria de tecnologia antes dos 35 anos, e elas continuam a ganhar menos que seus pares masculinos em funções equivalentes. Fundadoras de startups recebem, em média, metade do financiamento que seus pares masculinos. Um exemplo contundente dessa realidade é o recente cancelamento da Grace Hopper Celebration, um dos maiores eventos para mulheres e pessoas não-binárias na tecnologia. Os organizadores citaram uma queda drástica em inscrições e patrocínios, reflexo de anos de declínio na participação. Relatos de edições anteriores descrevem um ambiente caótico, com homens invadindo espaços destinados a recrutamento, além de episódios de assédio, evidenciando um cenário onde a inclusão se torna um desafio complexo.
Implicações e a fragilidade do ecossistema
O cancelamento da Grace Hopper Celebration, um pilar para a comunidade, deixa um vácuo significativo, especialmente para estudantes universitárias que dependem desses eventos para networking, estágios e oportunidades de emprego. A dificuldade em encontrar alternativas com a mesma concentração de recursos é um golpe para muitas que buscam ascender na carreira. Essa situação se agrava com o fechamento de outras organizações de apoio: a Women Who Code encerrou suas atividades em 2024 por falta de fundos. Paralelamente, políticas governamentais nos EUA — como a ordem executiva "Ending Radical and Wasteful Government DEI Programs and Preferencing" — impactaram programas de diversidade e inclusão em agências federais, resultando em cortes que, segundo especialistas, afetaram desproporcionalmente mulheres e pesquisadores em início de carreira.
Perguntas que persistem
A declaração de Mayer de que "beber seu próprio Kool-Aid é uma questão não-genérica" levanta uma questão mais ampla: até que ponto líderes da tecnologia estão verdadeiramente conectados às complexidades humanas e sociais dos produtos que criam? A recusa em reconhecer as barreiras de gênero na tecnologia não as faz desaparecer; apenas as torna mais difíceis de serem abordadas e superadas. A questão que permanece é se figuras influentes como Mayer conseguirão evoluir seu discurso para refletir as lutas e as conquistas reais das mulheres no setor, ou se continuarão a vender uma visão idealizada e desconectada da realidade.
A tecnologia, em sua essência, reflete os vieses e as estruturas da sociedade em que é criada. Ignorar o gênero não o torna irrelevante; apenas perpetua as desigualdades existentes. A busca por um futuro tecnológico mais justo exige não apenas paixão, mas também um reconhecimento profundo e contínuo das barreiras que ainda precisam ser transpostas.
Com reportagem de Brazil Valley
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