A Mars anunciou uma alteração significativa na composição de seus doces icônicos, incluindo M&M’s, Skittles e Starburst. A partir de agosto, pacotes selecionados vendidos exclusivamente pela Amazon deixarão de conter as cores azul e marrom, como parte de um esforço de dois anos para eliminar corantes artificiais de todo o seu portfólio. A mudança reflete uma adaptação da indústria alimentícia a um cenário regulatório e cultural mais rigoroso, alinhado à campanha “Make America Healthy Again”, promovida pelo atual Secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr.

Embora a empresa garanta que as versões tradicionais, com todas as cores sintéticas, continuarão disponíveis no varejo físico e em outros canais online, a medida sinaliza um ajuste estratégico da Mars diante das expectativas do governo americano. O movimento, segundo reportagem da Fast Company, acompanha iniciativas de outras gigantes do setor, como a PepsiCo, que têm investido em linhas de snacks sem corantes ou sabores artificiais, antecipando potenciais restrições futuras dos órgãos de saúde pública.

O desafio da engenharia de corantes

A transição para o chamado “clean label” provou ser um obstáculo técnico complexo para a Mars. Enquanto a empresa já obteve sucesso com as cores vermelha, amarela, laranja e verde em escala, a formulação para os tons azul e marrom permanece em fase de desenvolvimento. A busca por um pigmento azul natural e estável, em particular, tem sido o maior gargalo operacional para a equipe de pesquisa e desenvolvimento da companhia, sediada em McLean, Virgínia.

Tentativas anteriores utilizando espirulina, uma alga natural frequentemente usada para pigmentação azulada, resultaram em falhas operacionais, com o ingrediente causando obstruções nas máquinas de produção de revestimento. A empresa, que mobilizou cerca de 100 funcionários exclusivamente para este projeto, precisou investir na modernização de mais de 300 máquinas e na aquisição de novos equipamentos de limpeza industrial para viabilizar a transição. O objetivo da gestão é alcançar uma solução escalável para todo o portfólio até 2028.

Pressão regulatória e mudança de curso

Este movimento representa uma reviravolta na postura da Mars, que em 2016 havia tentado uma transição global para ingredientes naturais, mas recuou ao constatar que o consumidor final não considerava os corantes artificiais uma preocupação prioritária na época. A atual mudança parece menos uma resposta à demanda espontânea do mercado e mais uma reação preventiva ao ambiente político atual, onde as diretrizes do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA (HHS) exercem crescente influência sobre as decisões corporativas de Food Tech.

A estratégia de lançar pacotes com cores limitadas antes de atingir a fórmula técnica completa demonstra uma tentativa da marca de manter relevância e demonstrar conformidade com a nova agenda de saúde. A empresa aposta na transparência radical sobre as dificuldades do processo de P&D para mitigar eventuais críticas dos consumidores, historicamente acostumados ao padrão estético vibrante dos confeitos.

Stakeholders e o futuro da produção

Para investidores e concorrentes, o caso da Mars serve como um estudo de caso sobre os riscos e custos operacionais da transição para rótulos limpos. A necessidade de adaptar linhas de montagem inteiras e reconfigurar cadeias de suprimentos globais impõe um ônus financeiro significativo, que fatalmente pressiona as margens de lucro no curto prazo. Reguladores, por outro lado, observam atentamente como a indústria responde à pressão política e mercadológica sem a necessidade imediata de uma proibição legislativa formal.

Para o ecossistema de bens de consumo, a pergunta central é se o público aceitará variações de cor ou possíveis mudanças de textura em troca de formulações naturais. A experiência da Mars com a substituição da cor bege (tan) pelo azul em 1995, que gerou engajamento massivo através de votações populares, mostra que a marca entende como transformar mudanças de produto em vitórias de marketing. No entanto, a complexidade química atual é inédita em magnitude para a companhia.

Incertezas e o horizonte de 2028

O sucesso desta iniciativa depende agora puramente da capacidade da empresa em encontrar soluções de engenharia química que não comprometam a eficiência térmica e de fluxo de suas fábricas. A incerteza paira sobre a aceitação do público a longo prazo, caso as novas cores naturais apresentem tonalidades visivelmente mais opacas das que os consumidores estão habituados há décadas.

O setor de alimentos continuará acompanhando se a Mars conseguirá, de fato, padronizar sua oferta limpa até 2028. A transição deixou de ser apenas uma questão de substituição de ingredientes para se tornar um teste definitivo de resiliência tecnológica em um mercado onde a pressão por saúde se tornou um fator inegociável.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company