A Méliuz (CASH3) divulgou seu balanço do terceiro trimestre de 2026, apresentando uma desaceleração operacional que se refletiu na queda de quase 10% de suas ações no pregão. A receita líquida da companhia somou R$ 96,1 milhões, um recuo de 22,3% em relação ao mesmo período do ano anterior e de 16,9% na comparação trimestral. Este desempenho ficou aquém das expectativas do mercado, influenciado principalmente pela interrupção da parceria com a Casas Bahia após o pedido de recuperação judicial da varejista, além de ajustes no programa de afiliados da Amazon.

O lucro líquido reportado foi de R$ 113,7 milhões, influenciado por efeitos não recorrentes — como a reversão de R$ 78,5 milhões em perdas por impairment de bitcoin e um benefício fiscal de R$ 25,8 milhões, entre outros. Considerando os ajustes informados pela companhia, o lucro líquido ajustado foi de R$ 19,6 milhões. O Ebitda ajustado, métrica que avalia a geração de caixa, atingiu R$ 17 milhões, com margem de 17,7%, uma queda de cerca de 39% na comparação anual, mas ligeiramente acima das projeções compiladas pelo mercado, segundo relatórios citados pelo Money Times, apoiado por redução de gastos com cashback e despesas com pessoal.

E-commerce em Retração, Novas Vertentes em Expansão

O principal negócio da Méliuz, o e-commerce, continua a enfrentar um cenário desafiador. O volume bruto de mercadorias (GMV) da operação de shopping no Brasil atingiu R$ 1,25 bilhão, registrando uma queda de 3,3% em relação ao mesmo trimestre de 2025. A receita de e-commerce sofreu uma retração de 35,3%, totalizando R$ 50,4 milhões. A administração da empresa informou que apenas a saída da parceria com a Casas Bahia representou uma perda de aproximadamente R$ 15 milhões em receitas trimestrais.

Em contrapartida, a estratégia de diversificação da companhia tem demonstrado progresso. A divisão “Beyond e-commerce”, que inclui iniciativas como o Méliuz Nota Fiscal, apresentou um crescimento de 24% em bases comparáveis na comparação anual, alcançando quase 29% da receita total da operação brasileira. O programa de notas fiscais, em particular, já processa mais de 20 milhões de comprovantes mensais, segundo o BTG Pactual. Paralelamente, a área de serviços financeiros também mostrou sinais de recuperação, com receita bruta de R$ 10,5 milhões, um aumento de 10% em relação ao ano anterior e de 28% na comparação sequencial.

Bitcoin como Pilar Estratégico e de Tesouraria

A gestão de tesouraria com foco em bitcoin continua a ser um elemento central na estratégia da Méliuz, influenciando seus resultados financeiros. Durante o trimestre, a empresa vendeu 78 bitcoins por R$ 29,4 milhões para financiar seu programa de recompra de ações, movimento que auxiliou na manutenção da liquidez. Ao final de setembro, a companhia detinha 526,7 bitcoins em caixa, avaliados em cerca de R$ 230 milhões. A gestão da tesouraria prioriza a recompra de ações quando os papéis são negociados a múltiplos considerados descontados, com o objetivo de aumentar a quantidade de bitcoin detida por ação.

O primeiro programa de recompra de ações consumiu R$ 41,5 milhões e, segundo a empresa, gerou um ganho de 8,5% em “Bitcoin Yield” — uma métrica interna que mede a exposição à criptomoeda por ação. Essa estratégia visa, a longo prazo, capitalizar sobre a valorização do ativo digital, ao mesmo tempo em que oferece um retorno aos acionistas através da recompra de ações.

Análises Divergentes: Compra com Ressalvas

Analistas de mercado mantêm uma visão majoritariamente positiva para as ações da Méliuz, apesar dos desafios recentes. A equipe do BTG Pactual, liderada por Ricardo Buchpiguel, reconhece a perda de ritmo operacional, mas vê potencial de compensação através do crescimento de novas iniciativas como o Méliuz Nota Fiscal e parcerias em serviços financeiros. O banco mantém recomendação de compra, com preço-alvo de R$ 7, indicando um potencial de valorização superior a 60%.

Por outro lado, analistas do UBS BB, como Kaio Prato e Camila Azevedo, classificaram o trimestre como de crescimento fraco, porém em linha com as expectativas. O controle de custos foi um ponto positivo que atenuou a receita mais baixa. O UBS também recomenda a compra dos papéis, com preço-alvo de R$ 6, argumentando que a companhia negocia a níveis atrativos de valuation. Os catalisadores futuros apontados incluem a recomposição das receitas fora do e-commerce e o avanço da estratégia com bitcoin.

Perguntas em Aberto para o Futuro

O cenário para a Méliuz permanece complexo, com a empresa navegando entre a recuperação de seu negócio principal de e-commerce e a expansão de suas novas vertentes. A capacidade de mitigar os impactos da perda de grandes parceiros e de capitalizar sobre o crescimento de programas como o Nota Fiscal e os serviços financeiros será crucial para o futuro. A gestão da tesouraria em bitcoin, embora apresente potencial de valorização, também carrega riscos inerentes à volatilidade da criptomoeda.

A efetividade das novas parcerias e a resiliência do modelo de negócios em um ambiente de varejo online cada vez mais competitivo e regulado definirão a trajetória da empresa. Observar a evolução das métricas de monetização e a capacidade de gerar lucro ajustado de forma consistente serão pontos-chave para os investidores nos próximos trimestres, em meio a um cenário de valuation que atrai recomendações de compra.

A Méliuz busca equilibrar a pressão sobre seu negócio tradicional com a aposta em novas frentes, enquanto o mercado avalia o potencial de recuperação e a gestão de seus ativos em bitcoin. A consolidação dessas novas avenidas de negócio e a superação dos desafios macroeconômicos do varejo online determinarão o sucesso da estratégia a médio e longo prazo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times