A Meraki Capital, gestora que administra R$ 2,2 bilhões, está avaliando a criação de um fundo dedicado ao mercado de carros clássicos. O movimento, que busca profissionalizar o acesso a ativos de colecionismo no Brasil, é liderado pelo sócio-fundador e CEO Luiz Goshima, que também idealizou o Carde, museu de automóveis em Campos do Jordão. A iniciativa reflete o amadurecimento das estratégias de alocação em ativos alternativos, que ganham espaço em family offices globais.
Segundo reportagem da Bloomberg Línea, a tese de investimento se baseia na liquidez e na rastreabilidade de veículos raros, cujas transações atingiram cifras bilionárias no exterior. Com a expertise desenvolvida na gestão de fundos customizados para a Fundação Lia Maria Aguiar, a Meraki projeta trazer ao investidor brasileiro uma estrutura organizada para um segmento historicamente fragmentado.
A lógica da reserva de valor
O interesse por carros clássicos não é novo, mas a percepção do ativo como reserva de valor institucional tem evoluído. Diferente de outros bens colecionáveis, como obras de arte, que frequentemente possuem apelo regional, modelos icônicos de marcas como Ferrari ou Porsche possuem demanda global. Essa universalidade do desejo, aliada à escassez física de unidades originais, cria um patamar de preço resiliente a volatilidades de curto prazo.
Para investidores, a atratividade reside na capacidade do ativo de preservar patrimônio, um mecanismo que remete a estratégias de proteção contra inflação. A infraestrutura de verificação, que exige certificados de originalidade e histórico de propriedade rastreável, transforma o carro em um ativo financeiro auditável, assemelhando-o a commodities de luxo.
O mercado global como baliza
No cenário internacional, o antigomobilismo já conta com produtos financeiros estruturados. A RM Sotheby’s, por exemplo, registrou vendas recordes de US$ 1 bilhão em 2025, enquanto o mercado europeu movimentou cerca de € 45 bilhões no ano anterior. Bancos privados e consultorias, como o Lombard Odier, já tratam esses veículos como pilares importantes em carteiras de ativos alternativos.
A Meraki Capital observa que a falta de produtos financeiros organizados no Brasil representa uma oportunidade. Ao aplicar critérios rigorosos de curadoria, a gestora pretende reduzir as assimetrias de informação que tradicionalmente afastam investidores institucionais de nichos menos convencionais, trazendo previsibilidade a um mercado que sempre operou de forma analógica.
Implicações para o ecossistema de gestão
Para o mercado financeiro brasileiro, a aposta da Meraki sugere um movimento de diversificação além das classes tradicionais de renda fixa e variável. A gestão de fundos voltados a entidades assistenciais e family offices exige uma abordagem de longo prazo, onde a solidez do ativo é tão importante quanto a rentabilidade esperada. A capacidade da gestora em atuar com fundos customizados pode servir de modelo para outras entidades que buscam profissionalizar seus ativos de reserva.
Concorrentes e reguladores observarão como a precificação desses ativos será conduzida. A existência de índices de referência, como o da Hagerty, oferece um norte, mas a integração desses dados em fundos de investimento regulados no Brasil impõe desafios operacionais e de custódia que ainda precisam ser endereçados com transparência.
O horizonte do antigomobilismo
O sucesso dessa tese dependerá da aceitação do investidor brasileiro em relação à liquidez de ativos físicos de luxo. Embora o potencial de valorização seja evidente, o mercado de carros clássicos exige um nível de especialização técnica que poucas gestoras locais possuem atualmente.
Acompanhar se a Meraki conseguirá replicar o sucesso de curadoria do museu Carde em um produto financeiro escalável será o próximo passo. A questão central permanece sobre a profundidade desse mercado doméstico e a capacidade de sustentar prêmios de valorização ao longo de ciclos econômicos distintos.
O interesse crescente sugere que o antigomobilismo pode deixar de ser apenas um hobby de colecionadores para ocupar uma fatia das carteiras de investidores sofisticados. A transição para um mercado organizado é um caminho em construção, condicionado à transparência e à governança dos ativos envolvidos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Bloomberg Línea





