A indústria de apostas esportivas nos Estados Unidos enfrenta um novo desafio com o crescimento exponencial dos mercados de previsão. Esses mercados, que permitem apostar em resultados de eventos — incluindo esportes — operam sob regulamentação federal da Commodity Futures Trading Commission (CFTC), similar a mercados de futuros de commodities. Essa classificação os isenta das licenças estaduais e impostos que as casas de apostas esportivas tradicionais precisam pagar, replicando a estratégia que permitiu o rápido crescimento de empresas como DraftKings e FanDuel.

A Brecha Legal e a Evolução das Apostas

O cenário atual remonta a 2006, com a aprovação da Unlawful Internet Gambling Enforcement Act (UIGEA). A lei não proibiu as apostas online, mas restringiu a capacidade dos bancos de processar pagamentos para elas. Uma exceção notável foi aberta para o fantasy sports, considerado um jogo de habilidade, não de sorte. Inicialmente, o fantasy sports se resumia a ligas de temporada completa. Contudo, DraftKings e FanDuel capitalizaram essa brecha, popularizando os contests diários, que ofereciam resultados e pagamentos no mesmo dia. Essa adaptação, embora argumentada como um jogo de habilidade, foi vista por alguns reguladores, como o procurador-geral de Nova York em 2015, como uma tentativa de contornar a lei, levando à necessidade de regulamentação estadual mais rigorosa em muitos locais.

Novos Mercados, Velhas Estratégias

Agora, os mercados de previsão como Kalshi e Polymarket utilizam uma lógica similar. Em vez de "habilidade, não sorte", o argumento é "futuros de commodities, não apostas". Ao serem regulados pela CFTC, eles evitam a necessidade de licenças estaduais específicas para apostas e, consequentemente, o pagamento de impostos estaduais sobre o volume apostado. Uma pesquisa da Fullstory indica que 60% dos apostadores relatam que os mercados de previsão mudaram a frequência com que utilizam casas de apostas esportivas tradicionais, com 35% diminuindo o uso. Estima-se que o volume de apostas em mercados de previsão, que não são classificados como jogos de azar, some dezenas de bilhões de dólares, tornando-se invisível para os reguladores estaduais.

Experiência do Usuário e Implicações Regulatórias

As razões para essa migração incluem uma melhor experiência de usuário, com 60% dos entrevistados citando confiança e reputação, e 59% a facilidade de uso como fatores decisivos, superando os pagamentos ou odds. A transparência em torno dos resultados e precificação, além de uma interface mais intuitiva, são pontos fortes destacados. Essa mudança representa um alerta para as casas de apostas tradicionais. Em 2025, as apostas esportivas legais nos EUA geraram US$ 3,71 bilhões em receita tributária estadual. A American Gaming Association estima que os mercados de previsão já desviaram mais de US$ 500 milhões em potencial receita tributária. Estados como Illinois tentaram taxar esses contratos, mas enfrentaram contestações legais, argumentando que o produto é federalmente regulado. A principal ameaça, segundo especialistas, não é que os consumidores deixem de apostar em esportes, mas que suas expectativas sobre a experiência de apostas sejam redefinidas, exigindo maior escolha, transparência e usabilidade em todas as plataformas.

O cenário regulatório ainda está em evolução, com batalhas legais em andamento e a necessidade de os estados encontrarem um equilíbrio entre a tributação e a inovação. A forma como esses mercados de previsão continuarão a impactar a indústria de apostas e a receita pública definirá um novo capítulo para o setor nos próximos anos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune