O Mercosul oficializou nesta semana, durante a 68ª Cúpula de Chefes de Estado realizada em Assunção, o início das negociações formais com o Japão para a assinatura de um Acordo de Associação Econômica (AAE). O movimento marca uma tentativa estratégica do bloco sul-americano em diversificar suas parcerias comerciais além do eixo tradicional com a União Europeia e a China.

Segundo comunicado oficial do bloco, a iniciativa busca ampliar o acesso aos mercados de bens agrícolas e não agrícolas, além de fomentar investimentos recíprocos e a integração de cadeias de valor entre as economias. A decisão é o desdobramento prático da Associação Estratégica Mercosur-Japão, estabelecida em dezembro de 2025, que pavimentou o caminho diplomático nos últimos meses.

O potencial do mercado japonês

O alcance do possível acordo é expressivo. Caso as negociações avancem para a assinatura, será criada uma zona de livre comércio composta por cerca de 400 milhões de pessoas, com um PIB combinado estimado em 7 trilhões de dólares. Em 2025, o intercâmbio comercial entre as duas partes atingiu a marca de 13,7 bilhões de dólares, volume que o bloco espera ver crescer com a redução de barreiras tarifárias e não tarifárias.

Para o Mercosul, o Japão representa um parceiro tecnológico de alto valor, capaz de oferecer insumos e investimentos em setores de ponta. A integração com o mercado japonês, conhecido por suas exigências técnicas rigorosas, pode servir como um catalisador para a modernização da base industrial dos países membros, especialmente Brasil e Argentina, que buscam maior participação em cadeias de suprimentos globais de alta complexidade.

Mecanismos de cooperação e atração

O sucesso desta aproximação depende da capacidade técnica das equipes de negociação em alinhar interesses que, historicamente, apresentaram divergências, especialmente no setor de agronegócio. A estratégia do bloco é clara: utilizar o AAE como uma ferramenta de estabilização macroeconômica, atraindo capital japonês que busca segurança jurídica e eficiência logística na América do Sul.

Além disso, o anúncio de Lula da Silva sobre o aporte anual de 100 milhões de dólares ao Fundo para a Convergência Estructural do Mercosul (Focem) sinaliza uma tentativa de fortalecer a coesão interna. Esse reforço financeiro é visto como um passo necessário para que o bloco apresente uma postura mais sólida e unificada diante de parceiros globais exigentes como o Japão.

Tensões e desafios internos

Não obstante o otimismo diplomático, o bloco enfrenta tensões internas sobre a distribuição de benefícios. O presidente paraguaio, Santiago Peña, ressaltou a necessidade de um reparto equitativo das cotas de exportação, um tema sensível que frequentemente trava acordos multilaterais. A justiça na distribuição desses ganhos é apontada como um fator crítico para a sustentabilidade política do acordo.

Para os stakeholders, o desafio será equilibrar as demandas dos setores produtivos locais com as exigências de abertura de mercado impostas pelo Japão. Enquanto o Brasil foca na expansão de commodities e bens industriais, os demais membros buscam garantias de que não serão marginalizados no processo de negociação.

Perspectivas futuras

O que permanece incerto é o cronograma de implementação e a resistência que setores protecionistas de ambos os lados podem oferecer. O mercado acompanhará de perto as próximas rodadas de negociação para entender se a ambição política se traduzirá em reduções tarifárias concretas ou apenas em protocolos de intenções.

A evolução deste diálogo será um termômetro importante para a capacidade de articulação externa do bloco sul-americano. O desfecho das conversas definirá se o Mercosul conseguirá, de fato, se posicionar como um player relevante na agenda de diversificação da Ásia, ou se o acordo enfrentará os mesmos impasses que marcaram a longa trajetória com a União Europeia.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España