A inflação brasileira deu um sinal de trégua. O IPCA, índice oficial de preços, acumulou alta de 4,44% nos últimos 12 meses até julho, posicionando-se pela primeira vez desde abril abaixo do teto da meta, de 4,5%. O resultado, divulgado na mesma semana em que a ata da última reunião do Copom revelou um comitê dividido, oferece um alívio momentâneo, mas não dissipa as nuvens de incerteza no horizonte.

A leitura no mercado e no próprio Banco Central é que a batalha está longe de ser vencida. A leve alta de 0,07% em julho, embora baixa, superou as projeções de analistas e foi marcada por uma inflação de serviços mais resistente do que o esperado. O quadro desenhado é o de uma vitória frágil, conquistada em meio a um "cabo de guerra" de forças econômicas que pressionam os preços em direções opostas.

O cabo de guerra dos preços

O resultado de julho expõe as tensões que marcam a dinâmica inflacionária atual. De um lado, o grupo de Alimentação e bebidas registrou a maior queda desde 2024, puxado por itens como tomate e batata. Do outro, a conta de energia elétrica e as passagens aéreas, impulsionadas pelo período de férias, pressionaram o índice para cima. Sem o alívio dos alimentos, a inflação do mês teria sido de 0,27%; sem a alta da energia, haveria deflação.

Essa dualidade não é apenas estatística, mas um reflexo de desafios estruturais. A resiliência dos serviços sinaliza que a demanda interna, aquecida pelo mercado de trabalho robusto, continua sendo um foco de preocupação para o Banco Central, justificando a manutenção de uma política monetária restritiva. Ao mesmo tempo, a queda nos preços dos alimentos, embora bem-vinda, é volátil e está sob a ameaça do El Niño, cujos efeitos sobre a agricultura ainda são uma incógnita.

O labirinto da Selic

Nesse cenário complexo, o Comitê de Política Monetária (Copom) navega com cautela. Após reduzir a taxa Selic para 14% ao ano, o caminho adiante permanece nebuloso. A ata da última reunião e as análises de economistas indicam que uma nova redução de 0,25 ponto percentual em setembro está "sobre a mesa", mas não há consenso. A palavra de ordem no BC é "dependência de dados", um eufemismo para a elevada incerteza.

O dilema da autoridade monetária é calibrar o aperto necessário para conter a inflação de demanda sem sufocar a atividade econômica de forma desproporcional. A decisão é complicada por fatores externos, como o risco de novos conflitos globais, a trajetória dos juros nas economias desenvolvidas e a volatilidade cambial em ano eleitoral. Como resumiu o economista-chefe do C6, Felipe Salles, em análise para a InfoMoney, o Banco Central "vai tateando, decidindo reunião a reunião".

O alívio no índice cheio é uma notícia a ser celebrada, mas com sobriedade. A tarefa do Banco Central nos próximos meses será menos a de seguir um plano pré-definido e mais a de navegar em um ambiente de baixa visibilidade, onde cada novo indicador de atividade ou de preços pode forçar um ajuste de rota.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney