A política energética do México vive um momento de inflexão sob a gestão da presidente Claudia Sheinbaum. Em menos de dois anos de governo, as convocações coordenadas pela Secretaria de Energia (Sener) e pela Comissão Federal de Eletricidade (CFE) garantiram a adjudicação de 7.411 megawatts (MW) de nova capacidade renovável. O volume é praticamente idêntico aos 7.451 MW contratados durante todo o sexênio de Enrique Peña Nieto, período historicamente associado à abertura do setor elétrico mexicano.

O resultado, segundo reportagem da Expansión MX, superou a meta inicial de 6.500 MW, impulsionado pela alta demanda de investidores. O movimento marca um distanciamento claro da paralisia que caracterizou a administração de Andrés Manuel López Obrador, quando novos projetos privados enfrentaram sucessivos bloqueios regulatórios e incertezas jurídicas.

O novo modelo de desenvolvimento misto

A estratégia adotada pela atual administração introduz o conceito de "Desenvolvimento Misto". Sob esta estrutura, a CFE mantém uma participação mínima de 54% em cada projeto, enquanto o capital privado detém até 46%. A estatal assume a responsabilidade pela gestão de permissões, trâmites regulatórios e uso de terrenos, enquanto os parceiros privados aportam o capital para o desenvolvimento, construção e operação das usinas.

A adesão foi significativa: 394 empresas manifestaram interesse, resultando na adjudicação de 37 projetos — sendo 33 solares e quatro eólicos — a 31 desenvolvedoras distintas. Além da capacidade instalada, o pacote prevê investimentos da ordem de 7,4 bilhões de dólares e a inclusão de 1.850 MW em sistemas de armazenamento via baterias, um componente essencial para a estabilidade da rede.

Desafios operacionais e gargalos de suprimento

Embora o volume adjudicado seja expressivo, especialistas apontam que a transição do anúncio para a operação plena enfrenta riscos consideráveis. A cadeia de suprimentos global, altamente dependente de componentes chineses, permanece sob pressão, com custos elevados por conta de tarifas e mão de obra. A execução dos projetos, com prazos estipulados entre 2028 e 2029, exigirá uma logística rigorosa para evitar atrasos.

A infraestrutura de transmissão também surge como um ponto de atenção. A concentração de novos parques pode esbarrar em subestações obsoletas ou na falta de capacidade da rede elétrica nacional para escoar a energia produzida. Além disso, os desenvolvedores ainda precisam navegar por processos ambientais, consultas comunitárias e a obtenção da viabilidade financeira bancarizável para cada iniciativa.

Tensões regulatórias e o futuro do setor

O cenário de longo prazo ainda levanta interrogações sobre a disponibilidade de mercado para novos projetos. Analistas observam que, à medida que a capacidade é preenchida, as exigências de planejamento vinculante podem tornar o ambiente mais restrito. O governo sinalizou que novas rodadas ocorrerão para atender ao crescimento da demanda elétrica, mas o equilíbrio entre a participação estatal e a atratividade do capital privado continuará sendo um teste para a política econômica.

A capacidade de execução das empresas vencedoras será o próximo indicador de sucesso. O sucesso dessas adjudicações depende não apenas de vontade política, mas da capacidade do sistema elétrico mexicano em absorver a nova carga de forma eficiente e sustentável.

Perspectivas e incertezas no horizonte

O que permanece incerto é como a dinâmica de parcerias evoluirá diante de possíveis mudanças nas condições macroeconômicas ou políticas. O mercado observará de perto se os prazos de 2028 e 2029 serão cumpridos e como a infraestrutura de rede será adaptada para suportar a nova matriz renovável. A transição energética mexicana entra em uma fase de implementação prática, onde a eficácia operacional será o principal termômetro da confiança dos investidores.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Expansión MX