Sentado à mesa de jantar do sociólogo Daniel Bell em Cambridge, há quarenta anos, o filósofo Michael Sandel discutia um fenômeno que parecia uma anomalia passageira: a chamada “guerra civil cultural” americana. O diagnóstico da época era preciso ao notar a perda de autoridade do establishment liberal diante da ascensão de Ronald Reagan. A política, antes vista como um exercício de gestão técnica e direitos neutros, começava a revelar sua fragilidade estrutural. O que se desenhava ali não era apenas uma disputa eleitoral, mas um embate sobre a própria alma da vida pública, onde a neutralidade do Estado se mostrava insuficiente para ancorar a coesão social.

O mito da neutralidade como bússola

A tese central de Sandel, reiterada décadas depois, reside na vulnerabilidade intrínseca de um Estado que se pretende neutro. Para o filósofo, a tolerância não é um ideal autossuficiente; ela pressupõe uma visão prévia do bem comum que o liberalismo moderno, em seu esforço de imparcialidade, tentou suprimir. Ao tratar a política como um conjunto de procedimentos e direitos, o establishment acabou por esvaziar o espaço público de significados morais e espirituais. O resultado foi um distanciamento das instituições intermediárias — igrejas, clubes e associações locais — que, por muito tempo, forneceram o tecido conectivo da sociedade civil.

A ascensão da política de substância moral

No cenário atual, a leitura editorial sugere que o vácuo deixado pelo liberalismo foi preenchido por movimentos que não hesitam em infundir a política com moralidade. O fenômeno MAGA, por exemplo, é analisado como uma resposta direta a esse desamparo, ao oferecer uma substância moral baseada nos chamados “deuses fortes”: família, fé e nação. Enquanto o liberalismo se recusava a julgar concepções do bem, esses movimentos abraçaram o julgamento moral com convicção, apelando a símbolos e ressonâncias que tocam a identidade profunda dos cidadãos, algo que as elites tecnocráticas, por vezes, olharam com desdém.

O custo do desenraizamento comunitário

As implicações desse movimento são profundas para a estabilidade democrática. Ao invocar um hipernacionalismo que afirma a soberania com veemência, tais grupos respondem ao sentimento de desintegração do tecido social. A política, nesse contexto, deixa de ser um fórum de deliberação sobre interesses e passa a ser um campo de batalha por pertencimento. Para o observador atento, fica claro que a tentativa de governar sem tocar nas questões fundamentais da existência humana acabou por gerar uma reação que, ironicamente, busca restaurar a ordem tradicional através da força política.

O futuro das democracias liberais

O que permanece em aberto é se o projeto liberal ainda possui a capacidade de se reinventar sem recorrer a um moralismo autoritário. A pergunta que se impõe é se é possível reconstruir um sentido de comunidade que não seja excludente, ou se a política está fadada a ser um pêndulo entre a neutralidade técnica e o fervor identitário. O desafio para as próximas décadas parece residir menos na economia e mais na capacidade de conferir significado à vida coletiva em um mundo profundamente fragmentado.

A história da política recente é, em grande medida, a crônica de uma falha de imaginação moral. Se o Estado neutro não consegue sustentar a lealdade dos governados, ele se torna um alvo fácil para aqueles que prometem um retorno à ordem e à identidade. Resta saber se o debate público conseguirá reencontrar o equilíbrio entre a tolerância e a necessidade humana por um horizonte ético compartilhado.

Com reportagem de Brazil Valley

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