“Dê ao povo tudo que for possível. Quando lhe parece que está dando muito, dê mais. (...) Não há nada mais elástico do que a economia, que todos temem tanto porque ninguém a entende.” A frase, de uma carta de Juan Domingo Perón ao presidente chileno, é mais do que um conselho; é a certidão de nascimento de uma cultura política que levou a Argentina da prosperidade à decadência crônica. Hoje, um novo presidente tenta romper com essa herança, mas a questão é se a Argentina está pronta para abandonar o roteiro que conhece tão bem.
Javier Milei, com sua retórica iconoclasta, propõe um corte definitivo nesse passado. Seu projeto para dar autonomia ao Banco Central e proibi-lo de financiar o Tesouro não é apenas uma medida técnica. É uma tentativa de extirpar o coração do mecanismo peronista, que por 91 anos usou a emissão de moeda como ferramenta política. A análise do economista Fabio Giambiagi em seu novo livro, “Argentina para Brasileiros”, serve como um guia essencial para entender a profundidade desse desafio. A batalha de Milei não é apenas contra o déficit fiscal, mas contra um fantasma que define a alma do país.
A anatomia da elasticidade
O peronismo, como dissecado por Giambiagi, é uma ideologia difusa de nacionalismo, uma “terceira via” econômica e um populismo que se provou politicamente resiliente e economicamente devastador. Desde que o coronel Perón consolidou seu poder nos anos 1940, a Argentina vive um ciclo vicioso: governos testam os limites da “elasticidade” da economia com gastos e subsídios, a inflação dispara, a crise se instala, e planos de austeridade são implementados apenas para serem abandonados no ciclo seguinte. O resultado é um país que, no início do século XX, rivalizava com as nações mais ricas e hoje coleciona crises.
Os números não mentem. Entre 1981 e 2023, a Argentina registrou 19 anos de queda no PIB, contra nove do Brasil no mesmo período. A promessa de Milei de que “desta vez é diferente” se apoia em um pilar: a âncora fiscal. A ausência de déficit público, argumenta o governo, é o que diferencia seu programa das tentativas frustradas do passado, como a âncora cambial de Menem ou as expectativas não realizadas com Macri. A questão é se a disciplina fiscal, por si só, é suficiente para reescrever um roteiro tão profundamente enraizado.
O país do passado
Ao assumir, Milei encontrou um país quebrado, com dívida pública próxima de 160% do PIB e à beira da hiperinflação. Seus cortes drásticos nos gastos públicos trouxeram resultados iniciais no controle da inflação, mas o custo social e a viabilidade política da austeridade são as grandes incógnitas. A aprovação do presidente gira em torno de 40%, e um teste crucial se aproxima nas eleições legislativas do próximo ano, onde provavelmente enfrentará o kirchnerista Axel Kicillof, governador da província de Buenos Aires.
Como nota Giambiagi, mesmo que a política anti-inflacionária seja bem-sucedida, o governo precisa “gerar outros benefícios para a população para que esta se sinta recompensada.” O diagnóstico do ensaísta Alejandro Katz, citado no livro, permanece assustadoramente atual: a Argentina é um país medíocre que não consegue lidar com sua mediocridade, pois ainda se agarra à crença de que deveria ser algo muito melhor. O desafio de Milei, portanto, transcende a economia.
O verdadeiro teste é se ele conseguirá convencer os argentinos a trocar o drama de um “país de película”, com seus heróis e vilões populistas, por uma realidade talvez mais prosaica, mas estável. A resposta definirá se a Argentina continuará sendo, para sempre, o país do passado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech





