A desalavancagem tornou-se o novo mantra da Minerva Foods. Após encontro anual com a administração da companhia, o BTG Pactual reiterou em relatório sua recomendação neutra para as ações (BEEF3), adotando uma postura de cautela. O banco reconhece um potencial de valorização de mais de 70% para o papel, mas prefere observar a tese de fora por enquanto.
A leitura do mercado é que, embora a estratégia de crescimento da Minerva seja robusta, o peso da dívida exige uma solução antes que o valor seja, de fato, destravado para o acionista. O foco em abater o endividamento é visto como correto, mas a velocidade e a eficácia dessa execução em um ambiente macroeconômico adverso continuam sendo a principal variável da equação.
A disciplina antes do prêmio
A nova diretriz da gestão é clara: não haverá aceleração no pagamento de dividendos até que a alavancagem da companhia recue de um patamar próximo de 3 vezes o Ebitda para 1,7 vez. Na prática, segundo a análise do BTG, isso significa que a Minerva precisaria reduzir sua dívida líquida quase pela metade antes de considerar distribuições extraordinárias aos acionistas. A decisão foi bem recebida, dado que, com os juros nos níveis atuais, as despesas financeiras consomem uma fatia relevante do caixa operacional.
Para ajudar na tarefa, a companhia espera uma liberação de R$ 1,3 bilhão em capital de giro no segundo semestre, com a normalização de estoques que estavam acima da média. Ainda assim, as projeções do próprio banco indicam que o processo será lento. A expectativa é que a alavancagem líquida termine o próximo ano em um nível de 2,8 vezes o Ebitda, patamar muito similar ao do final do ano anterior, mostrando o tamanho do desafio.
O paradoxo do boi caro
A Minerva construiu nas últimas duas décadas uma das maiores plataformas de carne bovina do mundo, com 20 aquisições e uma capacidade de processamento que saltou de 1 milhão para quase 6 milhões de cabeças de gado por ano. Seu posicionamento na América do Sul confere vantagens de custo e a coloca em posição privilegiada para capturar oportunidades, como a recente cota adicional de importação com isenção tarifária anunciada pelos Estados Unidos.
O problema, no entanto, reside em um paradoxo estrutural do setor. O mesmo fator que eleva o preço da carne no mercado global — a escassez de oferta — também encarece a matéria-prima, o gado. Essa dinâmica comprime as margens dos frigoríficos, fazendo com que nem todo o benefício do preço final mais alto chegue à última linha do balanço. Como notaram os analistas do BTG, talvez seja mais interessante para o investidor estar “comprado em gado” do que na indústria que o processa.
Para o BTG, a relação entre risco e retorno permanece equilibrada, justificando a neutralidade. O banco acredita na tese de desalavancagem, mas as margens menores e a menor disponibilidade de gado no Brasil podem frear o processo. O mercado, ao que parece, aguarda a prova de que a dieta da dívida produzirá resultados concretos na balança antes de precificar um maior otimismo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





