As ações da Boa Safra (SOJA3) registraram forte alta após o Citi elevar seu preço-alvo de R$ 6,90 para R$ 7,50, mas a recomendação do banco de investimento permaneceu neutra. O movimento, que impulsionou os papéis em quase 7% no pregão de terça-feira, reflete uma visão dual sobre a companhia: uma perspectiva operacional em melhora, mas um balanço que exige cautela.

O cerne da tese, segundo reportagem do Money Times, está em uma dinâmica de mercado favorável, mas que não apaga os riscos financeiros. A escassez de sementes de soja no Brasil, provocada por excesso de chuvas e restrições de capital de giro em concorrentes, criou um ambiente propício para a recuperação de preços e margens, beneficiando diretamente a Boa Safra. Contudo, a alavancagem elevada e o aumento da inadimplência na carteira de clientes são um contraponto significativo a esse otimismo.

A bênção da escassez

A estratégia da Boa Safra diante deste cenário tem sido defensiva e focada em rentabilidade. Em vez de buscar crescimento agressivo de volume, a companhia optou por manter a produção em linha com as vendas do ano anterior, priorizando a recuperação de margens. A empresa internalizou cerca de 90% de sua capacidade produtiva, uma manobra para reduzir estoques, diminuir taxas de descarte e diluir custos fixos.

Essa disciplina operacional é uma resposta direta às condições do agronegócio. Com a oferta de sementes restrita no mercado, a Boa Safra ganha poder de precificação. A leitura é que a gestão está aproveitando uma janela de oportunidade externa para fortalecer sua estrutura de custos e margens, em vez de se expor a uma expansão de volume em um momento de incerteza para o produtor rural, que ainda lida com a volatilidade nos preços de fertilizantes e os riscos climáticos associados ao El Niño.

O freio da alavancagem

Se o cenário de mercado é um vento a favor, a estrutura de capital da companhia é a âncora que segura uma recomendação mais otimista. O Citi aponta para o crescimento de 188% nas contas a receber vencidas em relação ao ano anterior, um reflexo das dificuldades financeiras enfrentadas por produtores e distribuidores. Embora a administração afirme ter recuperado uma parcela relevante desses valores após o fechamento do trimestre, o dado acende um alerta sobre a qualidade da carteira de clientes.

O ponto mais crítico, no entanto, é a alavancagem financeira. A estimativa do banco é que o indicador encerre 2026 em aproximadamente três vezes o Ebitda, perigosamente próximo do limite de 3,5 vezes estabelecido nos covenants de dívida da empresa. Esse aperto limita a flexibilidade financeira e explica por que, mesmo com um cenário operacional mais saudável, o Citi prefere manter a cautela.

A Boa Safra se encontra, portanto, em um delicado equilíbrio. De um lado, uma oportunidade conjuntural de mercado que permite fortalecer a rentabilidade. Do outro, um balanço pressionado que exige gestão de caixa e de crédito rigorosa. O sucesso da tese dependerá da capacidade da empresa de converter a vantagem competitiva temporária em uma saúde financeira duradoura.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times