Uma jovem de 26 anos, com uma perda de visão quase total após uma hemorragia cerebral grave, tornou-se a primeira pessoa a receber mitocôndrias extraídas de seu próprio músculo da coxa e injetadas diretamente em seus olhos. O procedimento experimental, detalhado em um estudo preliminar, explora a possibilidade de usar essas usinas de energia celular para revitalizar neurônios danificados que ainda apresentam sinais de vida.

A paciente sofreu uma lesão prolongada por falta de sangue e oxigênio, resultando em danos severos nos nervos ópticos e atrofia visível. Mesmo com a corteza visual ainda recebendo alguma informação residual, sua capacidade visual era mínima, limitada à percepção de luz. Essa janela de oportunidade levou os pesquisadores a investigar se mitocôndrias saudáveis poderiam fornecer a energia necessária para reativar as células sobreviventes.

O Potencial da Medicina Regenerativa

A medicina regenerativa tem avançado a passos largos, buscando restaurar a função de tecidos e órgãos danificados por meio de terapias inovadoras. A ideia de transplantar organelas celulares, como as mitocôndrias, para áreas lesionadas representa um salto significativo nesse campo. As mitocôndrias são cruciais para a produção de energia celular, e sua disfunção está associada a diversas doenças e ao envelhecimento. No caso da retina, as células ganglionares possuem uma demanda metabólica excepcionalmente alta, tornando-as particularmente vulneráveis a insultos que comprometam o suprimento de energia. A capacidade de extrair e reintroduzir mitocôndrias autólogas (do próprio paciente) minimiza o risco de rejeição imunológica, um dos grandes desafios em transplantes.

O Mecanismo da Terapia

Para mitigar o risco de rejeição, os médicos optaram por coletar uma pequena biópsia do músculo da coxa da paciente. Deste tecido, foram isoladas milhões de mitocôndrias saudáveis, que posteriormente foram injetadas no humor vítreo de ambos os olhos. A esperança é que essas organelas recém-introduzidas possam fornecer o impulso energético necessário para que as células ganglionares da retina, ainda viáveis, voltem a transmitir sinais visuais ao cérebro. A pesquisa se baseia em experimentos anteriores com animais, onde terapias semelhantes demonstraram resultados encorajadores na restauração de funções visuais.

Primeiros Sinais e Desafios

Poucos dias após o procedimento, observaram-se os primeiros sinais encorajadores. Respostas pupilares normais à luz, que antes eram inexistentes, começaram a ser registradas em ambos os olhos. Mais notavelmente, foram detectadas atividades organizadas na corteza visual em sessões de acompanhamento dias após a intervenção. Contudo, a terapia ainda não restaurou a visão completa, e as respostas pupilares mostraram ser temporárias, desaparecendo em um olho e tornando-se esporádicas no outro. A pesquisa ainda carece de um grupo de controle e não confirma diretamente a integração das mitocôndrias às células ganglionares.

Perguntas em Aberto e o Futuro

Embora o estudo seja preliminar e envolva apenas uma paciente, os resultados são considerados promissores o suficiente para justificar investigações futuras. A principal conquista reside na demonstração da segurança do procedimento, sem efeitos adversos graves ou reações imunes perigosas. A equipe, liderada por David Putrino, já está em conversas com a FDA (agência reguladora de medicamentos e alimentos dos EUA) para desenvolver um protocolo que permita injeções mitocondriais seriadas e repetidas. O caminho para a restauração completa da visão pode ser longo, mas esta terapia abre uma nova fronteira na medicina regenerativa, oferecendo esperança para condições antes consideradas irreversíveis.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech