A estreia de James Lucas na direção com o longa-metragem Moss and Freud (2025) propõe um recorte sobre a amizade improvável entre a supermodelo Kate Moss e o pintor Lucian Freud. Longe de ser uma cinebiografia tradicional, a obra se posiciona como um filme de camaradagem glamoroso, mas que, segundo crítica publicada na Hyperallergic, resulta em uma narrativa tão frívola quanto o universo que tenta retratar.

Enquanto a produção se deleita em cenas de festas noturnas e excessos, o filme é acusado de celebrar uma dinâmica de poder inerentemente exploratória. Ao tratar seus protagonistas como figuras heroicas e dotadas de uma sabedoria mística sobre a "verdade", o roteiro ignora as complexidades éticas que permeiam a relação entre um artista consagrado e sua musa, optando por um tom previsível e, por vezes, vazio.

Estética como distração

O filme brilha, paradoxalmente, quando se entrega ao excesso visual. Desde as sequências iniciais, com Moss dirigindo pelas estradas britânicas, até os ambientes enfumaçados dos clubes londrinos, a cinematografia busca capturar uma decadência irresistível. No entanto, essa fachada estética parece servir apenas para mascarar a falta de substância no desenvolvimento dos personagens.

A interpretação de Ellie Bamber como Kate Moss é alvo de questionamentos quanto à sua capacidade de transmitir a crueza e o carisma da modelo real. Em vez da figura icônica que marcou os anos 90, o filme entrega uma protagonista que se encaixa em tropos de fragilidade, afastando-se do cinismo e da resiliência que definiram a trajetória de Moss na indústria da moda.

O mito do Grande Homem

Um dos pontos centrais da crítica reside na representação de Lucian Freud, interpretado por Derek Jacobi. O filme constrói a imagem do pintor como um "Grande Homem" que possui a habilidade mágica de enxergar a verdade em mulheres jovens. Essa construção ignora as facetas mais controversas e humanas de Freud, transformando sua exigência artística em uma espécie de sabedoria superior inquestionável.

Ao omitir as tensões reais da indústria, o filme evita o confronto com o caráter extrativo tanto do mundo da moda quanto das artes plásticas. A interação entre o artista e suas modelos é tratada como um processo biológico e psicológico profundo, quando, na prática, o roteiro apresenta diálogos que beiram o lugar-comum, falhando em oferecer qualquer insight real sobre o processo criativo.

Dinâmicas de poder negligenciadas

O longa ignora a disparidade de classe e privilégio entre os envolvidos. Em cenas onde Moss utiliza seu status para manipular situações cotidianas ou onde Freud convence mulheres a posar sem uma discussão clara sobre compensação, a obra se recusa a julgar o comportamento de seus protagonistas. O filme parece acreditar piamente na nobreza de seus anti-heróis, mesmo quando agem de forma flagrantemente desrespeitosa.

Para o espectador, a falta de uma lente crítica sobre essas interações torna a narrativa implausível. O filme desperdiça a chance de explorar como a fama e a genialidade artística podem ser utilizadas como ferramentas de controle, preferindo se refugiar em uma celebração superficial de uma amizade que, na tela, carece de profundidade emocional e intelectual.

O que resta após o final

A obra encerra sua trajetória com uma voz em off que tenta conferir um peso existencial ao ato de criar, uma conclusão que soa tão artificial quanto o restante da trama. Resta saber se o público encontrará valor na estética proposta ou se a superficialidade do roteiro será o legado definitivo deste projeto.

A recepção do filme levanta questões sobre o futuro das cinebiografias que optam por mitificar, em vez de analisar, figuras públicas. A tendência de transformar vidas complexas em narrativas simplistas de busca por "verdade" pode estar perdendo o fôlego diante de um público que demanda maior honestidade.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic