A indústria de cibersegurança do Reino Unido atingiu seu menor patamar de representação feminina em três anos, com mulheres somando apenas 16% dos trabalhadores. O dado, divulgado por uma pesquisa recente, reflete um problema persistente em áreas STEM, mas que se agrava neste setor, tanto em posições de liderança quanto no nível educacional. Isso ocorre mesmo com evidências de que meninas frequentemente superam meninos em disciplinas STEM nas escolas britânicas.

O cenário é ainda mais preocupante quando se observa a força de trabalho sênior. Entre profissionais com mais de seis anos de experiência, a porcentagem de mulheres cai para 12%, um número que se mantém estável desde o início do registro de dados. Em comparação, a média geral de trabalhadoras no Reino Unido em todos os setores é de 48%, e no setor digital, o índice é de 30%. Uma análise governamental com stakeholders do setor identificou que barreiras estruturais são as principais causas da exclusão de mulheres de posições de liderança.

O Legado do "Clube do Bolinha"

O histórico do setor, onde homens mais velhos ocupam posições de destaque há décadas, contribui para a perpetuação do "velho clube de rapazes". No entanto, recrutadores apontam que empregadores ainda impedem a ascensão de mulheres com base em suposições sobre seus planos familiares. Um agente de recrutamento relatou que empresas justificam a falta de diversidade com o argumento de que "se contratarmos uma mulher, ela engravidará e ficará fora por 12 meses", uma prática que configura discriminação de gênero e viola a Lei de Igualdade de 2010 do Reino Unido.

Outros obstáculos comuns incluem a suposição de que mulheres não possuem as habilidades técnicas necessárias e a percepção de que a cibersegurança é um campo predominantemente masculino. Estereótipos sobre o desinteresse feminino pelo setor persistem, como evidenciado por um relato de uma escola onde alunas saíram de uma palestra sobre cibersegurança, com a professora reforçando a ideia de que a área "não é um trabalho para meninas".

Barreiras Educacionais e Estereótipos Persistentes

A falta de representação feminina começa cedo. Há menos estudantes mulheres em cursos de cibersegurança do que em ciência da computação. Mesmo quando participam, o desempenho das meninas em disciplinas STEM é frequentemente superior ao dos meninos. A percepção cultural de que a cibersegurança não é uma área feminina, reforçada por incidentes em eventos de carreira, cria um ciclo vicioso que desestimula a entrada e permanência de mulheres no setor.

Jill Broom, chefe de resiliência cibernética da techUK, enfatiza a responsabilidade dos empregadores em desmantelar esses estereótipos. Ela destaca que a sub-representação feminina não apenas limita oportunidades para as mulheres, mas também restringe a diversidade de perspectivas e ideias essenciais para combater ameaças cibernéticas cada vez mais complexas. Educadores e empregadores precisam colaborar para promover a cibersegurança como um caminho de carreira acessível e inclusivo.

Outros Grupos e Desafios de Liderança

A representação de outros grupos mostra cenários mistos. Profissionais neurodivergentes atingiram um recorde de 22% no setor, superando a média digital de 19%. No entanto, este aumento pode refletir maior conscientização, e não necessariamente um crescimento real. A representação de minorias étnicas se manteve em 19%, alinhada à média digital, mas com apenas 9% em cargos seniores, uma queda em relação a anos anteriores.

Embora a etnia não seja frequentemente mencionada como um problema ativo, os dados quantitativos indicam uma diversidade étnica menor em níveis sêniores. Para profissionais neurodivergentes, a capacidade técnica não é um impeditivo, mas alguns apontam a falta de habilidades interpessoais como um obstáculo para funções de liderança. Pessoas com deficiência também estão sub-representadas, ocupando apenas 9% dos cargos gerais e 5% dos seniores, abaixo das médias do setor digital e geral.

O Futuro da Diversidade na Cibersegurança

O caminho para uma cibersegurança mais diversa no Reino Unido ainda é longo. A persistência de estereótipos de gênero, a falta de oportunidades iguais e a exclusão de grupos minoritários em posições de liderança exigem ações concretas e contínuas. A questão central é se as empresas e instituições educacionais conseguirão efetivamente quebrar as barreiras estruturais e culturais que limitam a participação plena de mulheres e outros grupos sub-representados.

A análise do governo sugere que a mudança é lenta e que a inércia, combinada com preconceitos velados, continua a moldar o "clube do bolinha" da cibersegurança. A verdadeira inclusão exigirá mais do que a simples constatação dos números; demandará uma reestruturação profunda das práticas de contratação, promoção e da cultura organizacional do setor. A questão que paira é se o setor de cibersegurança, vital para a economia e segurança do país, conseguirá superar seus próprios vícios para se tornar verdadeiramente representativo da sociedade que protege.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Register