A fila mais longa no entorno do Estádio Cidade do México não buscava o acesso às arquibancadas, mas sim o consumo. Dentro da boutique oficial da FIFA, réplicas da taça, camisas de três mil pesos e mascotes compunham um cenário que pouco lembrava as edições clássicas do torneio. Quarenta anos após o Mundial de 1986, o retorno do espetáculo ao mesmo solo revelou uma transformação profunda: o futebol, outrora protagonista absoluto, agora divide o palco com uma maquinaria comercial sem precedentes.
O novo modelo de negócios da FIFA
A ambição financeira da entidade é clara, com uma projeção de arrecadação superior a 11 bilhões de dólares para o ciclo 2023-2026. A expansão para 48 seleções não é apenas um movimento esportivo, mas uma estratégia de escala industrial. A cerimônia de abertura, repleta de estrelas da música pop e helicópteros, assemelhou-se mais a um show televisivo norte-americano do que à solenidade contida de décadas passadas. Até os rituais de entrada foram redesenhados para elevar a tensão, transformando cada segundo em um ativo comercial valioso.
A experiência como produto final
Dentro do estádio, a desmaterialização do dinheiro em pagamentos digitais e as pausas estratégicas para hidratação — que servem tanto à saúde quanto ao patrocínio — confirmam que o tempo de jogo tornou-se um produto. O torcedor não viaja mais apenas pelo esporte; ele busca uma 'experiência mundialista' integral. O público, composto por gerações distintas, parece aceitar essa transição com naturalidade, tratando o alto custo da jornada como um investimento válido em troca do entretenimento proporcionado pela marca global.
Tensões sociais no gramado
A presença de figuras do alto empresariado mexicano, como Ricardo Salinas Pliego, em meio à multidão, sublinhou como o estádio se tornou um espelho da polarização política e social. Enquanto a torcida celebrava o gol, o ambiente ao redor fervilhava com a exposição de líderes de opinião e a busca constante por validação nas redes sociais. O futebol, embora ainda seja o motor que justifica o deslocamento físico, atua agora como pano de fundo para um ecossistema de turismo e status.
O limite do espetáculo
O que resta de autêntico quando o apito final soa? A euforia do gol de Julián Quiñones provou que, por um instante, a mercadoria desaparece e a emoção coletiva retoma o controle. Contudo, a pergunta que persiste é até onde a FIFA pode esticar essa corda comercial sem diluir a essência que atrai as massas. O sucesso de 2026 sugere que o modelo funciona, mas a memória do que o futebol um dia representou permanece em conflito com a nova realidade de um produto cultural moldado para o lucro.
O Mundial 2026 não é apenas sobre quem levanta a taça, mas sobre quem domina a narrativa do consumo global. Enquanto o público continuar a abraçar a experiência, o espetáculo seguirá crescendo, deixando para trás a simplicidade de um jogo que, um dia, não precisava de tanta produção para ser inesquecível.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Expansión MX





