O Grupo Gigante, um dos mais tradicionais conglomerados do México, voltou ao centro das atenções do mercado com o interesse em adquirir a rede de restaurantes La Casa de Toño. Para muitos, a memória do grupo está atrelada à sua antiga e onipresente rede de supermercados, vendida em 2007 para a rival Soriana. A notícia, reportada pelo portal mexicano Expansión, revela o quão longe o grupo chegou em sua reinvenção.

A possível transação não é um movimento oportunista, mas o capítulo mais recente de uma profunda transformação estratégica. Desde que se desfez de seu principal negócio, o Gigante tem usado os recursos para se tornar um investidor sofisticado em outros setores, com destaque para o imobiliário e, principalmente, o de restaurantes. A potencial aquisição consolida uma tese de que o futuro do varejo também se joga na mesa do consumidor, e não apenas no carrinho de compras.

A construção de um portfólio

Após a venda dos supermercados, o Grupo Gigante, ainda sob influência da família fundadora Losada, concentrou seus esforços na construção de uma plataforma de negócios diversificada. A divisão de restaurantes, o Grupo Restaurantero Gigante, tornou-se a face mais visível dessa nova fase. A estratégia não foi apostar em uma única frente, mas sim em um portfólio que equilibra diferentes formatos e públicos.

A base do portfólio é a marca própria Toks, uma rede de restaurantes casuais que é a origem da divisão. A partir dela, o grupo expandiu-se de forma metódica: primeiro, operando como franqueado master de marcas americanas de sucesso, como a Panda Express e a sofisticada rede de hamburguerias Shake Shack. Em seguida, partiu para aquisições estratégicas de marcas locais, como a rede de tacos El Farolito, adicionada em 2020. É uma clássica estratégia de "house of brands", que busca sinergias operacionais enquanto ataca múltiplos segmentos do mercado.

O xadrez da consolidação

A eventual compra da La Casa de Toño se encaixa perfeitamente nesse quebra-cabeça. Não se trata apenas de adicionar mais portas ao portfólio, mas de adquirir um ativo com forte capital de marca e lealdade do consumidor no concorrido mercado de comida tradicional mexicana. O movimento fortaleceria a posição do Gigante em um segmento autêntico e de alto volume, equilibrando a presença de marcas internacionais com um sabor genuinamente local.

Em comunicado à bolsa de valores mexicana, o Grupo Gigante confirmou que analisa a operação, mas ressaltou seu caráter preliminar, afirmando que "não há certeza de que a operação chegará a se concretizar". A cautela é padrão em transações dessa magnitude. A estratégia, no entanto, é clara: usar escala, expertise imobiliária e capacidade de gestão para consolidar um mercado pulverizado, de forma similar ao que fundos de private equity e grupos como a brasileira IMC fazem no setor de food service.

O que se observa no México é um estudo de caso sobre reinvenção corporativa. O Grupo Gigante deixou de ser um gigante do varejo tradicional para se tornar um articulador de marcas no setor de serviços. A busca pela La Casa de Toño não é apenas sobre comprar mais uma rede de restaurantes; é a afirmação de uma identidade construída ao longo de quase duas décadas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Expansión MX