A indústria de equipamentos e vestuário para esportes de aventura, que movimenta bilhões de dólares globalmente, construiu sua imagem sobre pilares como sustentabilidade, superação e conexão com a natureza. Contudo, um artigo de opinião publicado pela revista americana Outside Online expõe um ponto cego gritante neste universo: o apagamento sistemático de mulheres com mais de 50 anos.
Escrito pela ativista Teresa Baker, o texto argumenta que, enquanto o setor avança em diversidade de etnias e tipos físicos, ele simultaneamente impõe uma data de validade para a relevância feminina. A tese é que essa exclusão não é acidental, mas um reflexo de um duplo padrão profundamente enraizado no marketing e na cultura de marcas como The North Face, Patagonia e Columbia, que reverenciam a longevidade masculina, mas associam o apelo feminino estritamente à juventude.
O duplo padrão da longevidade
A crítica se torna mais contundente na comparação direta. Alpinistas como Reinhold Messner, aos 80 anos, e Conrad Anker, na casa dos 60, continuam sendo figuras reverenciadas, cujas imagens e opiniões estampam capas de revistas e moldam conversas no setor. Suas idades são tratadas como um ativo, um sinônimo de sabedoria e resiliência. O mesmo vale para o fotógrafo e montanhista Jimmy Chin, presença constante na mídia especializada aos 50 anos.
O artigo então lança a pergunta: onde estão suas contrapartes femininas? Nomes como Lynn Hill, que revolucionou a escalada e hoje tem mais de 60 anos, ou Steph Davis, uma das mais completas escaladoras e base jumpers do mundo, na casa dos 50, raramente recebem o mesmo tratamento. A leitura aqui não é que faltem mulheres experientes e ativas, mas que a indústria escolheu ativamente não contar suas histórias. A mensagem implícita é que o corpo e as conquistas de uma mulher deixam de ser “aspiracionais” a partir de certa idade, um critério que não se aplica aos homens.
Um apagamento com consequências
Este viés vai além de uma injustiça de representação. Ele reverbera por todo o ecossistema. Para as mulheres mais jovens, sugere que sua paixão pelo esporte tem um prazo de validade. Para as mulheres na faixa dos 50 ou mais, sinaliza que sua experiência e força devem se retirar discretamente dos holofotes. O resultado é a perpetuação de uma cultura que desvaloriza a mulher no momento em que ela envelhece, reforçando um etarismo de gênero que o próprio setor diz combater em outras frentes.
A solução, aponta o artigo, exige intencionalidade. Não se trata de incluir uma ou outra mulher mais velha como um token em uma campanha isolada, mas de uma correção de rota estrutural. Isso passa por contratar embaixadoras de marca com mais de 50 anos, dar a elas o mesmo destaque de atletas mais jovens, e, fundamentalmente, diversificar as equipes de marketing e liderança que aprovam essas estratégias. O desafio é interrogar por que a invisibilidade se tornou a norma e o que define um perfil “aspiracional”.
A indústria outdoor se orgulha de celebrar o que é duradouro, selvagem e resiliente. O argumento de Baker deixa no ar se a mesma lógica será um dia aplicada às mulheres que personificam exatamente essas qualidades, independentemente de sua idade. As histórias existem e as atletas estão na ativa. A questão é se as marcas terão a coragem de finalmente vê-las.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Outside Online





