Ao cruzar as portas do Starrett-Lehigh Building, em Manhattan, a sensação imediata não é a de adentrar um templo da vanguarda, mas a de caminhar pelos corredores de um shopping center de alto padrão. Nesta 12ª edição da New Art Dealers Alliance (NADA), o que se observa é a prevalência de uma estética que, embora vibrante, começa a soar repetitiva. Entre esculturas zany, o uso de materiais brilhantes e uma profusão de kitsch, os estandes parecem, por vezes, versões intercambiáveis de uma mesma proposta comercial.

A ditadura dos tropos visuais

A onipresença de certos padrões — o que se poderia chamar de "shiny stuff" ou uma abstração da sensualidade — sugere um mercado que, na ânsia de capturar a atenção, acaba por homogeneizar a produção. Quando a arte é consumida sob a ótica da tendência, o risco é o achatamento da experiência. O que a NADA revela, talvez involuntariamente, é a exaustão de um ciclo onde a novidade é apenas uma variação marginal sobre o já conhecido, transformando a visita à feira em um exercício de identificação de clichês.

A resistência no detalhe

Contudo, é justamente nas fissuras dessa padronização que residem os momentos de maior impacto. O trabalho de Elena Roznovan, por exemplo, utiliza a linguagem do BDSM para dissecar a complexidade da maternidade e das normas sistêmicas. Ao incorporar elementos biológicos em painéis de concreto, a artista força o espectador a confrontar a brutalidade do corpo contra a rigidez da regulação. É uma abordagem que rompe com a leveza decorativa predominante, trazendo uma carga política que exige pausa e reflexão profunda.

Identidade e memória em desconstrução

Outros artistas presentes na feira oferecem contrapontos essenciais. Kelly Tapia-Chuning, ao desconstruir serapes vintage, não apenas manipula o tecido, mas desfaz as camadas de violência colonial e o apagamento de identidades indígenas no México contemporâneo. Da mesma forma, a sutileza das peças de bronze de Jimena Croceri ou a delicadeza das ilustrações de Niniko Morbedadze provam que, mesmo em um ambiente dominado pelo espetáculo, a intimidade e a técnica ainda possuem o poder de criar um refúgio contemplativo para o olhar atento.

O futuro da curadoria comercial

O que permanece em aberto é se o formato de feiras como a NADA ainda consegue sustentar a complexidade do que propõe representar. Quando a alternativa — como a 95 Gallon Gallery, que transportou seu próprio espaço expositivo para o evento — consegue gerar uma reação genuína de conexão humana, nota-se que o público ainda busca algo além do produto final. A pergunta que ecoa após o encerramento dos estandes é se o mercado de arte conseguirá se reinventar antes que a repetição se torne, de fato, o seu único legado.

Talvez a arte contemporânea precise de menos brilho e de mais coragem para habitar o desconforto, onde as perguntas são mais importantes do que a mercadoria exposta nas paredes.

Com reportagem de Hyperallergic

Source · Hyperallergic