A Natura adotou uma estratégia atípica no mercado de capitais brasileiro ao antecipar a divulgação de dados operacionais do primeiro trimestre. A fabricante de cosméticos reportou uma receita 6% inferior ao consenso dos analistas, que projetava R$ 5,5 bilhões para o período. A decisão de tornar públicos os números antes da data oficial de divulgação, prevista para maio, foi interpretada como um esforço deliberado de transparência.

O movimento, que inicialmente foi visto com cautela, resultou em uma reação inesperada na B3. Após a divulgação, as ações da companhia chegaram a subir 7,5% durante o pregão, encerrando o dia com alta de 5,2%. O comportamento do papel sugere que o mercado priorizou a clareza na comunicação em detrimento do impacto imediato da receita, em um contraste direto com o pessimismo que marcou a divulgação de rentabilidade no quarto trimestre de 2025.

A estratégia de transparência como ativo

A mudança na postura da Natura responde a uma demanda latente da base de investidores. Após o impacto negativo causado pela queda na rentabilidade no final de 2025, a companhia intensificou o diálogo com o mercado financeiro. A mensagem central captada pela gestão foi a necessidade de uma comunicação mais frequente e menos reativa diante de dificuldades operacionais.

Segundo fontes próximas à empresa, a antecipação dos dados visou evitar que o mercado fosse surpreendido negativamente no futuro, fortalecendo a credibilidade da gestão. Esse movimento de antecipação de más notícias é uma prática rara, mas que, neste caso, serviu para ancorar as expectativas e demonstrar controle sobre a narrativa, evitando especulações que costumam inflar a volatilidade das ações após o fechamento do trimestre.

O impacto operacional e técnico

Além do fator comunicacional, a alta das ações possui um componente técnico relevante. O nível de aluguel dos papéis da Natura estava elevado, com taxas que chegaram a atingir 150% ao ano, o que pressionou o fechamento de posições vendidas e contribuiu para a valorização rápida. Do ponto de vista operacional, a queda na receita foi atribuída a uma combinação de fatores, incluindo a implementação de novos sistemas de planejamento e a migração de plataformas de TI, como a substituição do SAP após 26 anos.

Essas transições, embora fundamentais para a modernização, geraram desbalanceamentos no abastecimento e limitações de capacidade, agravadas pela transferência da fábrica de Interlagos para Cajamar. A empresa também promoveu ajustes estruturais, como a equalização de preços entre canais digitais e franquias e a reestruturação dos contratos de franqueados, visando mitigar a canibalização e melhorar a performance de vendas no longo prazo.

Tensões entre canais e regulação

A busca pelo equilíbrio entre o varejo online e a rede de consultoras e franquias representa um desafio central para a Natura. A empresa identificou que condições comerciais díspares entre os canais criavam conflitos de mercado. Ao implementar regras mais rígidas para unificar a política de preços, a companhia sacrificou o crescimento imediato do digital em favor da sustentabilidade do modelo de negócio.

Adicionalmente, fatores externos, como a defasagem na transição da substituição tributária em São Paulo para a venda direta, também pesaram no resultado. Enquanto o comércio geral adaptou-se no início do ano, o setor de venda direta ainda absorve os efeitos. A gestão espera que esses impactos sejam majoritariamente normalizados a partir do segundo trimestre, à medida que a nova logística e os sistemas integrados alcancem plena estabilidade operacional.

O que observar daqui para frente

O mercado agora volta suas atenções para a capacidade da Natura em converter esses ajustes estruturais em ganhos de margem e receita nos próximos trimestres. A normalização dos níveis de estoque é o principal indicador de curto prazo para validar se as dores da transição tecnológica foram superadas.

A persistência ou não da volatilidade nas ações dependerá da eficácia dessas novas políticas comerciais em manter a coesão entre os canais de venda. A transparência exibida nesta semana estabelece um novo padrão, mas a pressão por resultados concretos permanece como o principal desafio para a liderança da companhia.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech