A marca própria Needs, carro-chefe da RD Saúde, atingiu a marca de R$ 1,6 bilhão em faturamento no ano de 2025. O desempenho coloca a linha como a segunda mais vendida no segmento de autosserviço farmacêutico do Brasil, ficando atrás apenas da Pampers, da Procter & Gamble, segundo dados da IQVIA citados por Gustavo Milo, diretor de marcas próprias da companhia.

O resultado reflete uma mudança na dinâmica de consumo dentro das farmácias Raia e Drogasil. Enquanto marcas nativas digitais de skincare ganham tração nas redes sociais, a Needs utiliza a capilaridade da rede para consolidar sua presença, representando cerca de 5% da receita total da gigante farmacêutica, que registrou R$ 47,6 bilhões em receita bruta no ano passado.

A estratégia de agilidade fabril

O diferencial competitivo da Needs reside no tempo de resposta ao mercado. Enquanto a indústria tradicional leva de três a cinco anos para desenvolver e lançar um novo item devido à necessidade de investimentos em infraestrutura fabril, a RD Saúde opera em um modelo de terceirização estratégica. A empresa aciona fornecedores já estabelecidos para desenvolver produtos sob demanda, reduzindo o ciclo de lançamento para um período de oito a dez meses.

Essa arquitetura operacional permite que a RD Saúde identifique lacunas em categorias específicas e ocupe espaços rapidamente. A margem bruta da marca própria, que supera as demais categorias da rede em 14 a 15 pontos percentuais, torna-se um motor essencial para a rentabilidade da companhia, especialmente em um cenário onde a penetração de marcas próprias no varejo brasileiro ainda é incipiente, situada em torno de 1% das vendas totais.

O papel das cápsulas sazonais

Para manter o engajamento do consumidor, a marca aposta em coleções limitadas, chamadas de "cápsulas sazonais". Lançamentos como "Summer Vibes" e "Hype Glow" utilizam o senso de urgência para impulsionar o giro de estoque em um curto intervalo, geralmente planejado para três meses. A linha "Pão de Mel", por exemplo, esgotou o volume projetado para um mês em apenas dez dias.

Essa tática não apenas estimula a recorrência de visitas às lojas físicas e ao canal digital, mas também cria um diferencial de exclusividade. Ao oferecer produtos que o consumidor não encontra em redes concorrentes, a RD Saúde fortalece o vínculo de fidelidade com o cliente, transformando a marca própria em um ativo estratégico de retenção.

Implicações para o ecossistema

O avanço da Needs sinaliza uma pressão crescente sobre os fabricantes tradicionais de higiene e beleza. Ao dominar categorias como proteção solar e primeiros socorros, a rede de farmácias passa a ditar o ritmo de inovação e o posicionamento de preços na gôndola. Para concorrentes e fornecedores, o cenário exige uma adaptação rápida aos modelos de colaboração propostos pela rede.

Para o mercado brasileiro, o movimento reforça a tendência de consolidação das marcas próprias como alavanca fundamental de competitividade. A expectativa de triplicar a receita da marca até 2030 sugere que a RD Saúde continuará expandindo seu portfólio exclusivo, possivelmente ocupando fatias cada vez maiores do share de carteira do consumidor final.

O horizonte da expansão

O sucesso da Needs levanta questões sobre o limite de crescimento para outras marcas exclusivas do grupo, como a bwell e a Nutrigood. A capacidade da companhia de manter a qualidade percebida enquanto escala o volume de lançamentos será o principal desafio para os próximos anos.

Observadores do setor devem acompanhar se a estratégia de "cápsulas" conseguirá sustentar o crescimento a longo prazo sem gerar fadiga no consumidor. A meta de triplicar o faturamento da marca própria dependerá da execução precisa em três pilares: recomendação interna, presença omnicanal e a cadência de novos produtos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea