Ao cruzar as portas renovadas do New Museum em Nova York, o visitante não encontra apenas obras de arte, mas um espelho caótico e inquietante de si mesmo. A exposição 'New Humans: Memories of the Future', inaugurada nesta primavera, é uma montagem ambiciosa que reúne mais de setecentos objetos, desde artefatos do início do século XX até criações contemporâneas que desafiam a própria definição de biologia. Sob a curadoria de Massimiliano Gioni, a mostra não busca respostas simplistas, mas propõe uma arqueologia da nossa obsessão moderna em redesenhar a vida.

O resultado é uma espécie de bestiário ciborgue, onde a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta para se tornar uma extensão, e por vezes uma ameaça, à forma humana. A narrativa curatorial traça uma linha histórica que começa nas feridas da Primeira Guerra Mundial e avança até o desconforto atual com a inteligência artificial, sugerindo que nossa compulsão pelo progresso técnico caminha, invariavelmente, ao lado de um desejo autodestrutivo.

A máquina como extensão do corpo

A exposição dedica um espaço significativo à história da fotografia e à ciência do movimento, elementos que, no início do século passado, foram fundamentais para a padronização do trabalho e da eficiência. As imagens de Frank Gilbreth, com seus estudos de tempo e movimento, aparecem aqui não apenas como registros técnicos, mas como documentos surrealistas. Ao desconstruir o corpo em gestos mecânicos, essas fotografias revelam a tensão entre o indivíduo e a otimização industrial.

Mais adiante, o espectador encontra objetos que borram as fronteiras entre o doméstico e o militar. Cornets acústicos projetados na década de 1930, quando exibidos fora de seu contexto original, carregam uma aura sinistra, lembrando que a mesma tecnologia que amplia a audição pode ser utilizada para fins de vigilância ou guerra. Essa é a tese central que permeia a mostra: a tecnologia nunca é neutra; ela é sempre uma extensão das nossas ansiedades e intenções mais profundas.

O espectro da inteligência artificial

No centro da discussão contemporânea, a inteligência artificial surge como a nova fronteira dessa ansiedade prometeica. Obras como a animação de Cao Fei ou a instalação de Christopher Kulendran Thomas exploram como os algoritmos estão moldando nossa percepção da realidade e da identidade. A presença de uma coleção "curada" pelo Google Gemini, que utiliza imagens de clássicos como 'Metropolis' e 'Blade Runner', sublinha o quanto nossa visão de futuro ainda está ancorada em medos do passado.

O trabalho de Hito Steyerl, 'Mechanical Kurds', traz uma camada necessária de realidade ao debate, ao expor o trabalho humano invisível que sustenta a IA — pessoas reais classificando imagens para alimentar máquinas. A obra força o público a confrontar o custo ético e social por trás da automação. Aqui, a tecnologia não é uma abstração digital, mas um sistema que depende da exploração de corpos reais em contextos de precariedade.

Conexões e rupturas humanistas

A mostra dialoga implicitamente com exposições históricas como 'The Family of Man', montada no MoMA em 1955. Se aquela exposição celebrava uma unidade universal da experiência humana, 'New Humans' prefere uma abordagem mais fragmentada e política. Ao incorporar perspectivas de estudos indígenas e negros, a curadoria questiona se o conceito de "humano" não foi, historicamente, uma técnica ocidental de controle.

Ainda assim, o corpo permanece como a constante inescapável. Seja através da representação do nascimento, da família ou da morte, a exposição insiste que, independentemente de quão modificados sejamos pelas máquinas, a carne e a mortalidade continuam sendo o terreno onde nossas maiores questões são travadas. A substituição do termo "Man" por "Humans" reflete essa tentativa de expandir a compreensão do que significa existir neste momento histórico.

O futuro da nossa condição

O que permanece após a visita é uma sensação de vertigem. Se a tecnologia nos permite remodelar cada aspecto da vida, qual é o limite dessa intervenção? A exposição não oferece um veredito, mas deixa claro que a nossa relação com o futuro é, em última análise, um confronto contínuo com o que escolhemos preservar de nós mesmos.

À medida que avançamos na integração com sistemas digitais, resta a dúvida: estamos a caminho de uma nova forma de humanidade ou apenas repetindo os erros de um passado que insistimos em chamar de superado? A resposta talvez resida menos na tecnologia que criamos e mais na forma como decidimos, coletivamente, habitar o espaço entre a máquina e o corpo.

Com reportagem de Brazil Valley

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