Em um cenário geopolítico cada vez mais fragmentado, o Brasil é instado a reavaliar suas alianças estratégicas. Nicholas Burns, diplomata americano com vasta experiência, incluindo o posto de embaixador dos EUA na China, e atual professor em Harvard, argumenta que o país sul-americano precisa fortalecer seus laços para evitar ser marginalizado em um mundo potencialmente dominado por um duopólio entre Estados Unidos e China. A relação diplomática entre Brasil e EUA atravessa um período de tensão, descrito por Burns como o mais difícil em décadas, apesar de ambos serem as maiores potências do hemisfério e democracias com interesses comuns.

O Imperativo das Alianças em um Mundo Fragmentado

A visão de Burns é clara: a ordem mundial baseada em regras, que emergiu após a Segunda Guerra Mundial, está sob pressão. Regimes autoritários como China, Rússia, Irã e Coreia do Norte demonstram uma articulação crescente, exigindo uma resposta coordenada das nações democráticas. Burns lamenta a erosão das instituições internacionais e dos princípios que regem as relações entre países, como a proibição de invasões e a defesa das liberdades individuais. Ele defende a reconstrução dessa ordem, mas ressalta que deve ser um projeto colaborativo, não imposto por uma única potência. Para o diplomata, o livre comércio e a livre iniciativa são pilares essenciais, mas mesmo as superpotências necessitam de aliados. A intimidação de parceiros tradicionais, como o Canadá, ou a ameaça a aliados da OTAN, como a Dinamarca, são exemplos de unilateralismo que Burns considera contraproducentes. O Brasil, ao se aproximar da China, adota uma postura que os EUA também praticam em suas relações comerciais. No entanto, Burns expressa preocupação com a proximidade excessiva com a China, descrita como um país autoritário controlado pelo Partido Comunista, que pode impor demandas significativas a seus parceiros. A esperança do diplomata é que Brasil e EUA, como as nações mais poderosas do hemisfério, cultivem uma relação mais estreita.

O Papel das "Superpotências Intermediárias"

Burns categoriza países como Brasil, Japão, Índia e Rússia, além da União Europeia, como "superpotências intermediárias". Ele alerta contra a aceitação de um "G2" – um cenário onde EUA e China ditariam as regras globais. Essa configuração seria um erro monumental, especialmente para os EUA, que historicamente contaram com aliados globais, incluindo o Brasil. A estratégia para que essas potências intermediárias tenham voz ativa reside em manter e fortalecer estruturas multilaterais como o G20, e em formar coalizões específicas para lidar com problemas pontuais. O diplomata concorda com a visão de Mark Carney de que o G20 nem sempre é o fórum decisório ideal e que coalizões ad hoc são frequentemente necessárias. É nesse espaço que países como o Brasil podem amplificar sua influência e moldar agendas globais. A comparação com a Guerra Fria revela diferenças cruciais. Enquanto a União Soviética era uma potência militar, sua capacidade econômica era limitada. A China, por outro lado, possui um poder econômico e um alcance global significativamente maiores, evidenciado por iniciativas como a Belt and Road e a penetração de suas marcas no mercado global. Essa força econômica e o sucesso de suas políticas de desenvolvimento nos últimos 40 anos tornam a China um desafio de magnitude superior para os EUA, em contraste com o declínio soviético nas décadas de 60, 70 e 80.

Alinhamento Estratégico e Riscos Tecnológicos

A relação entre EUA e China, apesar das divergências, mantém uma estabilidade relativa com canais de comunicação abertos e esforços para reduzir tensões. No entanto, a corrida pela liderança em tecnologias emergentes, como a Inteligência Artificial (IA), adiciona uma nova camada de complexidade. Líderes americanos da área de IA alertam para a necessidade de acelerar o desenvolvimento para não perder terreno para a China. Burns reconhece que a inovação em IA, biotecnologia e computação quântica está majoritariamente nas mãos de empresas privadas, e que restringir esse progresso seria contraproducente. Contudo, ele enfatiza que decisões críticas, especialmente aquelas com potencial de impacto global, como o desenvolvimento de armas nucleares e cibernéticas, não podem ser deixadas exclusivamente a cargo de corporações. É necessário um equilíbrio entre a liberdade de inovação e a regulação. Cada nação deve definir seus limites aceitáveis, mas princípios globais são indispensáveis para as questões mais críticas. A Venezuela, por exemplo, é um ponto de atrito onde a colaboração entre Brasil e EUA seria benéfica para promover um futuro democrático, reconstruir sua indústria petrolífera e apoiar o retorno de exilados.

Perguntas em Aberto e o Futuro das Relações Bilaterais

A atual relação diplomática entre Brasil e EUA, marcada por tarifas e interferências políticas, precisa de um esforço consciente para ser reestabelecida. A cordialidade e o respeito mútuo entre os chefes de governo são fundamentais, assim como a não interferência em assuntos domésticos. A questão de saber se os EUA devem continuar atuando como guardiões da paz e promotores da democracia na América do Sul permanece em aberto, mas a influência de Burns sugere que uma abordagem colaborativa, com o Brasil como parceiro ativo, seria mais eficaz. A busca por um equilíbrio entre o comércio com a China e a manutenção de laços fortes com democracias ocidentais define o dilema estratégico do Brasil. O futuro da influência brasileira no cenário global dependerá de sua capacidade de forjar e fortalecer alianças, garantindo que sua voz seja ouvida em um mundo cada vez mais polarizado.

O diplomata americano Nicholas Burns oferece um roteiro para o Brasil navegar em um cenário geopolítico complexo, onde a formação de alianças estratégicas é a chave para manter a autonomia e a influência. A relação com os Estados Unidos, apesar dos desafios atuais, apresenta um potencial inexplorado para colaboração hemisférica e global.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech