A galeria Acne Paper Palais Royal, em Paris, abriu as portas para "A Measure of the Moon", uma exposição individual do artista e designer nigeriano Nifemi Marcus-Bello. A mostra, com curadoria de Charlene Prempeh, mergulha em uma reflexão profunda sobre o consumo excessivo global, utilizando materiais reaproveitados de Lagos, na Nigéria, como principal ferramenta expressiva.

Marcus-Bello, conhecido por sua série "Material Affirmations: Oríkì Acts I–III", expande sua investigação sobre a cultura material. Ele questiona como os padrões de consumo desenfreado do Norte Global impactam negativamente a disponibilidade de recursos e a viabilidade econômica no Sul Global. A exposição é construída em torno de discos geométricos de bronze, que buscam dissecar a importância histórica deste metal na África Ocidental. Paralelamente, o designer investiga o uso de alumínio, coletado, derretido e refundido nas fundições informais de Lagos. Estes materiais são recontextualizados, transformando-se em formas que evocam a lua e recipientes, remetendo à sua série anterior "Tales By Moonlight".

O Tempo e a Matéria na África Ocidental

A técnica de fundição em areia, a mais utilizada e sustentável na Nigéria, também marca presença na exposição. Marcus-Bello a emprega como uma representação do tempo, sinalizando as capacidades de manufatura do país em meio à contínua extração de recursos. "Objetos carregam vestígios do que veio antes, sugestões do que pode vir a seguir e uma expressão do que está acontecendo agora, criando um ciclo contínuo de uso, transformação e renovação onde o tempo se torna indissociável do material", explicou Marcus-Bello.

A base auditiva da instalação é um soundscape de oríkì, uma tradição Yoruba de poesia e afirmação. A sonoridade é apresentada pela mãe do designer, Folake, que confere um ritmo espacial à galeria. Essa fusão de arte visual, materialidade reciclada e tradição oral Yoruba cria uma experiência imersiva que convida o espectador a refletir sobre a origem e o destino dos objetos em um mundo de consumo acelerado.

Consumo Global e suas Consequências

A exposição "A Measure of the Moon" aborda diretamente a disparidade entre o Norte e o Sul Global em relação ao consumo. Enquanto o Norte acumula bens e recursos, o Sul frequentemente lida com a escassez e a exploração. Marcus-Bello utiliza materiais encontrados nas ruas de Lagos – uma cidade vibrante e complexa, marcada por sua informalidade e resiliência – para construir uma narrativa visual poderosa. O alumínio, por exemplo, é retirado do ciclo de descarte e transformado em arte, questionando o valor atribuído aos materiais e a quem ele beneficia.

O bronze, com sua rica história na África Ocidental, é revisitado através de uma lente contemporânea. Os discos geométricos, embora simples em sua forma, carregam um peso histórico e cultural significativo. Ao recontextualizá-los, Marcus-Bello força o público a reconsiderar o significado e o uso desses materiais em um contexto de produção em massa e obsolescência programada. A escolha da fundição em areia como técnica principal também reforça a ideia de um processo mais lento, artesanal e sustentável, em contraste com a velocidade e o desperdício da produção industrial global.

Implicações para o Ecossistema Artístico

A abordagem de Marcus-Bello tem implicações importantes para o cenário artístico global. Ao dar protagonismo a materiais reciclados e técnicas tradicionais africanas, ele desafia as noções eurocêntricas de arte e valor. A exposição não apenas expõe um problema social e econômico, mas também propõe uma solução estética, demonstrando que a beleza e o significado podem ser encontrados naquilo que é descartado ou negligenciado.

Para o ecossistema artístico brasileiro, que também lida com questões de identidade cultural e desenvolvimento econômico, a obra de Marcus-Bello pode servir de inspiração. A capacidade de reinterpretar materiais locais e tradições culturais para abordar temas globais é um caminho promissor para artistas que buscam relevância e impacto. A curadoria de Charlene Prempeh, focada em dar voz a artistas emergentes com narrativas fortes, também é um modelo a ser observado.

Perguntas em Aberto

A exposição deixa no ar diversas questões. Qual o verdadeiro custo do consumo desenfreado para as comunidades do Sul Global? Como a arte pode efetivamente catalisar mudanças de comportamento em relação ao consumo? E até que ponto a recontextualização de materiais e técnicas tradicionais pode resgatar e revalorizar identidades culturais em um mundo cada vez mais globalizado e homogêneo?

"A Measure of the Moon" convida à reflexão sobre o ciclo de vida dos objetos e o tempo que eles carregam. A mostra, que fica em cartaz até 20 de dezembro de 2026, é uma oportunidade para o público parisiense e internacional dialogar com uma perspectiva africana sobre um dos desafios mais prementes da atualidade.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hypebeast