Uma nova exposição no Hammer Museum, em Los Angeles, parte de uma premissa ambiciosa: apresentar obras de artistas que “colaboram com materiais vivos como iguais”. Intitulada Several Eternities in a Day: Form in the Age of Living Materials, a mostra busca desafiar a noção de matéria inerte na produção artística.
Contudo, uma análise contundente do portal especializado Hyperallergic sugere que a execução não cumpre a promessa. A leitura é que, em vez de uma experiência dinâmica e imprevisível, a exposição se revela estática e excessivamente controlada. A “vida” dos materiais, segundo a crítica, depende mais dos textos de parede do que da força das próprias obras, criando uma dissonância entre o conceito e o resultado.
Uma promessa não cumprida
A crítica do Hyperallergic aponta que a presença dos elementos orgânicos é muitas vezes tão sutil que se torna invisível sem a devida explicação textual. Um exemplo citado é a instalação de Edgar Calel, “Splashes of my desire on top of stones” (2026), onde pedaços de ervas e sangue sobre rochas precisam ser apontados pelo texto para serem notados. A exposição, nesse sentido, mais conta do que mostra, minando a potência sensorial que o tema sugere.
O texto aprofunda a análise ao contextualizar a mostra dentro da própria instituição. Há uma ironia latente em uma exposição sobre ecologia e espiritualidade ser abrigada em um museu fundado pelo CEO da petroleira Occidental Petroleum, no coração de uma Los Angeles definida pelo automóvel. Para o crítico, a exposição não oferece um antídoto real a esse paradoxo, arriscando-se a parecer uma coleção de “cartões-postais exóticos” de outras culturas, em vez de um questionamento genuíno.
O risco do controle excessivo
As escolhas curatoriais também são postas em xeque. A inclusão de certas obras, como as de Mary Sully, é descrita como tendo uma conexão tênue com o tema central. O ponto principal da crítica é a ausência de “bagunça” ou imprevisibilidade. As obras parecem excessivamente contidas, e o portal chega a sugerir que trabalhos de outros artistas, como Cecilia Vicuña, poderiam ter encarnado a proposta de forma mais visceral e menos controlada.
Essa aversão ao risco se estende às atividades paralelas. Um evento de cura sonora, por exemplo, ocorreu em um terraço coberto do museu, abdicando de locais mais ambiciosos e pertinentes, como os jardins botânicos da UCLA ou cemitérios próximos. A experiência, portanto, permanece encapsulada dentro das paredes institucionais, falhando em engajar-se de fato com o “mundo vivo” que pretendia celebrar.
A proposta da exposição é louvável, mas a sua materialização parece não ter encontrado o tom. Segundo a crítica do Hyperallergic, ao final da visita, a sensação é de que o potencial transformador da arte se dissipa no retorno ao estacionamento. O eco do mundo espiritual e natural soa apenas de forma fraca dentro do museu, levantando questões sobre os limites da representação do selvagem e do imprevisível no ambiente controlado do cubo branco.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic





