A baía de Palma de Mallorca é um cenário de postais, mas no final de junho, durante a Superyacht Cup, um fantasma do passado cortava as águas do Mediterrâneo. Com 40 metros de comprimento, o veleiro Rainbow, um ícone da Classe J, competia não apenas contra o vento, mas contra a própria história. No leme, não estava um velejador profissional de carreira, mas Peter Harrison, o CEO da Richard Mille para a Europa, Oriente Médio e África, a marca de relógios cujo nome patrocinava o evento.
A cena encapsula uma confluência rara entre paixão pessoal, estratégia de marca e legado histórico. Harrison não estava ali apenas como executivo; estava como proprietário e capitão da embarcação, vivendo em primeira mão a filosofia que sua empresa vende por centenas de milhares de dólares. A regata se torna, assim, um palco para entender como o extremo luxo se conecta a uma busca quase primitiva por performance e concentração.
A ressurreição de uma lenda
Os veleiros Classe J são mais que barcos; são monumentos flutuantes de uma era dourada da náutica. Projetados para competir na America's Cup entre 1930 e 1937, eles representavam o ápice da tecnologia e do design da época. O Rainbow original, construído para o magnata americano Harold Vanderbilt, venceu a mítica regata em 1934. Seu destino, no entanto, foi selado pela Segunda Guerra Mundial: o casco de bronze e chumbo foi desmontado em 1940, seu metal reaproveitado para o esforço de guerra americano. Apenas nove veleiros Classe J existem hoje no mundo.
A história do Rainbow de Harrison é uma de ressurreição. Em 2012, uma réplica exata foi construída a partir dos planos originais, e no início do ano, Harrison a adquiriu. Segundo ele relatou em entrevista à Forbes España, a compra veio com uma promessa ao antigo dono de competir em Palma. A decisão de patrocinar a regata com a Richard Mille foi uma consequência natural. “Todo o mundo reconhece um Classe J; são uma parte importante da história da náutica”, afirmou. Reunir os poucos exemplares existentes é um desafio logístico e de egos, mas a simples presença de dois deles, o Rainbow e o Svea, na baía, já era um evento em si.
Carbono, titânio e a alma da máquina
O que um veleiro dos anos 1930 tem a ver com um relógio suíço de ultra-luxo do século 21? Para Harrison, tudo. A conexão não está na estética vintage, mas na obsessão pela performance através da tecnologia de materiais. O Rainbow de hoje, embora visualmente idêntico ao seu predecessor, é uma máquina completamente diferente. Mastro, retranca e velas são de fibra de carbono. O barco é cerca de 40 toneladas mais leve que o original, um ganho de eficiência que espelha a filosofia da Richard Mille.
“É muito parecido com o que fazemos com nossos relojes: o rendimento é tudo”, explicou Harrison. Ele cita o RM 27-05, desenvolvido para Rafael Nadal, que pesa apenas 20 gramas, como exemplo dessa busca incessante por leveza e durabilidade. A ponte é feita de materiais como o Carbon TPT, uma tecnologia com raízes diretas na vela de alta performance, desenvolvida para criar velas mais leves e resistentes. O primeiro bloco de Carbon TPT usado pela Richard Mille, aliás, veio do mastro do Alinghi, veleiro vencedor da America's Cup de 2003. A narrativa se fecha: o material que permite um iate cortar o vento com mais eficiência é o mesmo que permite um relógio resistir às forças G de uma partida de tênis profissional.
Para Harrison, a vela é mais do que um hobby ou uma plataforma de marketing. É uma forma de evasão e concentração absolutas. “Quando estou no barco, não posso pensar em nada mais”, diz. Com 33 tripulantes profissionais esperando que ele tome as decisões certas no timão, a margem para distração é zero. É nesse estado de foco total, em silêncio, movido apenas pelo vento e em contato com a natureza, que o CEO de uma das marcas mais exclusivas do mundo parece encontrar seu verdadeiro luxo. Longe das planilhas e das reuniões de conselho, a única coisa que importa é a próxima rajada de vento e o ângulo das velas.
Source · Forbes España





