A renovação do apartamento Monterols, localizado no bairro de Sarrià, em Barcelona, exemplifica uma abordagem cirúrgica na arquitetura residencial contemporânea. O projeto, conduzido pelo escritório NOT A STUDIO, debruçou-se sobre uma unidade de 36 metros quadrados situada em um edifício datado de 1919, buscando reverter décadas de compartimentação excessiva que haviam fragmentado a planta original. Ao remover paredes internas que isolavam os cômodos, os arquitetos conseguiram recuperar o volume espacial da propriedade, que conta com quase cinco metros de pé-direito.
Segundo reportagem do Designboom, a intervenção não apenas eliminou barreiras físicas, mas também integrou um mezanino de 15 metros quadrados, adicionado em uma reforma anterior, ao fluxo contínuo do loft. A estratégia central do projeto foi a valorização da estrutura original do prédio, que antes permanecia oculta sob camadas de acabamentos desnecessários. A transformação ressalta como a reconfiguração de espaços urbanos compactos pode ser alcançada por meio da subtração, privilegiando a altura e a entrada de luz natural em vez da simples expansão de metragem quadrada.
A estratégia das cores como organizador espacial
O uso de cores vibrantes — especificamente tons de azul, verde e amarelo — desempenha um papel fundamental na organização do layout aberto. Em vez de esconder as vigas e colunas que sustentam o edifício, o NOT A STUDIO optou por destacá-las como elementos visuais que delimitam as zonas funcionais do apartamento. Essa escolha estética transforma componentes estruturais, muitas vezes vistos como obstáculos, em marcadores que guiam a percepção do usuário pelo ambiente.
A paleta cromática se estende por toda a residência, conectando o mezanino às áreas de convivência no térreo. Um detalhe notável é a iluminação em arco azul suspensa sobre a cozinha, que estabelece um ponto focal no espaço, enquanto colunas verdes e marcenaria em tons claros conferem ritmo visual. Essa técnica evita que o ambiente pareça monótono ou excessivamente técnico, conferindo uma atmosfera lúdica que dialoga com a história centenária do imóvel sem tentar replicar seu passado de maneira nostálgica ou artificial.
Materiais e a coexistência entre o antigo e o novo
A materialidade do projeto é um reflexo do equilíbrio pretendido entre o histórico e o contemporâneo. A exposição de alvenaria original, combinada com o uso de compensado naval na marcenaria, aço inoxidável e azulejos, cria um contraste tátil que reforça a autenticidade do espaço. A escada que conduz ao mezanino, por exemplo, não é apenas um meio de circulação, mas uma peça de mobiliário multifuncional que integra armazenamento oculto, otimizando cada centímetro disponível no footprint reduzido.
Essa abordagem demonstra a viabilidade de habitar estruturas antigas com exigências modernas. Ao manter traços da fabricação original da construção, o projeto preserva a memória do edifício em Sarrià, enquanto as superfícies de aço e azulejos trazem a necessária funcionalidade para a vida urbana atual. A leitura editorial aqui é que a intervenção do NOT A STUDIO reconhece a arquitetura não como algo estático, mas como uma camada de história que deve ser continuamente renegociada para atender às necessidades dos novos moradores.
Implicações para o mercado de habitação urbana
O caso Monterols oferece um paralelo interessante para o mercado imobiliário brasileiro, particularmente em centros densos como São Paulo ou Rio de Janeiro, onde o estoque de edifícios antigos sofre com a obsolescência funcional. A prática de remover divisórias para revelar o pé-direito original é uma estratégia de valorização imobiliária que pode transformar imóveis pouco atrativos em lofts altamente desejáveis. O projeto mostra que a flexibilidade espacial, quando bem executada, supera a rigidez das plantas tradicionais.
Além disso, o uso inteligente de cores como ferramenta de design é uma solução de baixo custo que pode ser replicada em intervenções de menor escala, sem a necessidade de reformas estruturais profundas e onerosas. Para reguladores e arquitetos, a obra reforça a importância de flexibilizar normas de reforma em prédios históricos, permitindo que a criatividade arquitetônica garanta a longevidade dessas estruturas em vez de condená-las ao abandono ou à demolição por falta de adequação ao estilo de vida contemporâneo.
Perspectivas sobre a reabilitação de edifícios
O que permanece incerto é a escalabilidade desse modelo em edifícios que não possuem a mesma qualidade estrutural ou altura que o exemplar de Sarrià. A viabilidade econômica de projetos que exigem tanto cuidado na remoção de camadas históricas pode ser um fator limitante para incorporadoras focadas apenas em lucro rápido. Entretanto, o valor agregado pela singularidade do design aponta para um nicho de mercado crescente.
Observar a evolução do uso desses espaços nos próximos anos será fundamental. A questão central é se a valorização da estrutura original se tornará um padrão de mercado ou se continuará sendo uma exceção de projetos de arquitetura de autor. A tendência, contudo, parece favorecer a reabilitação em vez da construção nova, à medida que a sustentabilidade ganha peso nas decisões de investimento imobiliário.
A renovação do Monterols é um lembrete de que o valor de um imóvel muitas vezes reside naquilo que já está lá, esperando para ser revelado. Ao abrir mão de divisões obsoletas e abraçar a estrutura original, o NOT A STUDIO conseguiu não apenas reformar um apartamento, mas redefinir sua própria existência dentro do tecido urbano de Barcelona.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





