A Novo Nordisk apresentou uma nova proposta à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) para a inclusão da semaglutida no SUS. A farmacêutica oferece um desconto de 59% nos valores do medicamento, buscando atender aos critérios de custo-efetividade que inviabilizaram a tentativa anterior de incorporação, rejeitada em agosto de 2025.
O movimento ocorre em um momento de mudança no cenário competitivo, com a expiração de patentes e a chegada de novos fabricantes. A estratégia atual da companhia é restringir o público-alvo a pacientes com obesidade que já sofreram infarto, visando mitigar riscos cardiovasculares graves e reduzir a demanda por procedimentos de alta complexidade no sistema público.
Ajuste de estratégia e foco clínico
A proposta anterior, rejeitada pela Conitec, previa um impacto financeiro estimado em R$ 3,7 bilhões ao longo de cinco anos. Ao restringir o uso do medicamento a um grupo de maior risco, a Novo Nordisk tenta demonstrar que o investimento inicial pode ser compensado pela economia gerada ao evitar eventos como AVCs e cirurgias de revascularização do miocárdio, cujos custos hospitalares são elevados para o Estado.
A farmacêutica fundamenta sua nova petição nos resultados do estudo SELECT, que indicou uma redução de 20% no risco de morte cardiovascular, infarto e AVC em pacientes com sobrepeso ou obesidade sem diabetes. A leitura editorial é que a empresa busca transformar a semaglutida de um medicamento de uso amplo para um tratamento profilático de alta precisão dentro do sistema público.
O dilema da sustentabilidade no SUS
O debate sobre a incorporação da semaglutida coloca em xeque a capacidade do SUS de financiar tratamentos de alto custo para condições crônicas de massa. Com cerca de 60 milhões de brasileiros vivendo com obesidade, a universalização do acesso ao fármaco permanece um desafio logístico e orçamentário, mesmo com descontos agressivos.
O Ministério da Saúde mantém uma postura cautelosa. O governo sinalizou que iniciará estudos de campo, como o projeto no Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, para avaliar na prática se o uso da semaglutida pode reduzir a fila de cirurgias bariátricas ou até mesmo tornar o procedimento desnecessário para certos perfis de pacientes.
Stakeholders e o mercado de biotecnologia
Para a Novo Nordisk, o sucesso desta negociação é crucial para consolidar sua posição no mercado brasileiro frente ao aumento da concorrência de genéricos e biossimilares. Para o governo, o desafio é equilibrar a inovação tecnológica com a sustentabilidade fiscal, enquanto médicos e pacientes aguardam alternativas menos invasivas que a cirurgia bariátrica.
O desfecho desta análise pela Conitec será um termômetro importante para a incorporação de outras terapias de ponta no SUS. A pressão por eficiência no gasto público e a necessidade de reduzir internações prolongadas por doenças crônicas tornam a decisão um caso de estudo sobre a viabilidade econômica de tratamentos preventivos de longo prazo.
Perspectivas e incertezas
Permanece em aberto se o desconto de 59% será suficiente para convencer os técnicos da Conitec sobre o custo-efetividade da semaglutida. A eficácia dos estudos de campo no SUS será determinante para a decisão final das autoridades regulatórias.
O monitoramento dos próximos passos do Ministério da Saúde deve indicar se a estratégia de segmentação de pacientes será aceita como um modelo sustentável de incorporação tecnológica. A evolução da concorrência no mercado farmacêutico brasileiro também poderá pressionar novos ajustes de preços.
O cenário sugere uma mudança na forma como o Estado avalia a incorporação de novos medicamentos, priorizando cada vez mais o impacto direto na redução de custos hospitalares de alta complexidade. Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





