David Vélez, Cristina Junqueira e Edward Wible fundaram o Nubank em maio de 2013. O cenário era de um oligopólio bancário: cinco instituições dominavam 80% do mercado, impondo tarifas elevadas e burocracia excessiva. Vélez, após uma tentativa frustrada de abrir uma conta bancária que durou 45 dias, decidiu que o sistema precisava de uma alternativa digital e simplificada.
A primeira transação com o cartão roxo ocorreu em 1º de abril de 2014. A estratégia de crescimento baseou-se em uma lista de espera exclusiva e convites, garantindo viralização orgânica entre a classe média urbana. O produto inicial focava em simplicidade e controle total via aplicativo.
O Nubank estruturou-se inicialmente como instituição de pagamento e sociedade de crédito direto. Esta escolha deliberada permitiu evitar a complexidade regulatória de um banco múltiplo, focando na agilidade operacional. A parceria inicial com o Banco Votorantim para a emissão dos cartões foi substituída conforme a empresa ganhou tração e escala própria.
Três viradas que definiram a trajetória
Entre 2017 e 2021, Nubank deixa de ser cartão roxo e vira plataforma financeira.
Em 2017, a empresa lançou o programa de fidelidade Nubank Rewards e a NuConta. A conta digital, com rendimento automático, alterou a dinâmica de receita: o cliente passou a depositar recursos, criando uma base de funding de baixo custo para financiar a expansão do crédito.
Em 2018, a Tencent investiu US$ 180 milhões, validando o modelo de negócio internacionalmente. Esse capital impulsionou a infraestrutura tecnológica e a diversificação de produtos, como empréstimo pessoal e conta PJ.

Entre 2019 e 2020, o Nubank iniciou sua expansão regional. Em maio de 2019, anunciou operações no México; em novembro de 2020, confirmou a entrada na Colômbia. A estratégia replicou a tese brasileira em mercados com baixa bancarização e alta concentração. A empresa captou uma linha de crédito de US$ 650 milhões para sustentar esse movimento.
Como Nubank ganha dinheiro hoje
Receita vem de três motores: juros, interchange e serviços — nessa ordem.
Os juros de crédito, provenientes do cartão rotativo e empréstimos, compõem cerca de 60% da receita. A [LINK:nubank-acelera-credito-e-eleva-provisoes-o-risco-por-tras-da-expansao](aceleração do crédito traz riscos de inadimplência) que exige gestão rigorosa. O segundo motor é o interchange, com 25%, seguido por serviços como seguros e investimentos, que representam 15%.
O IPO na NYSE, realizado em 9 de dezembro de 2021, captou US$ 2,6 bilhões com um valuation de US$ 41,5 bilhões. Em janeiro de 2026, a instituição atingiu 112 milhões de clientes no Brasil, consolidando-se como a maior instituição financeira privada do país em volume de usuários.

O Nubank possui uma base de clientes mais jovem e engajada que os incumbentes, embora o ARPAC — a receita média por cliente ativo — ainda permaneça abaixo dos grandes bancos tradicionais. A vantagem competitiva reside na eficiência operacional e na ausência de custos de agências físicas.
Tensões regulatórias e competitivas
Crescimento traz escrutínio: Banco Central aperta cerco, concorrentes reagem, clientes processam.
A ausência de uma licença bancária formal no Brasil limita a oferta de produtos regulados, como câmbio. À medida que o Nubank ganha importância sistêmica, a pressão do Banco Central aumenta. O mercado aguarda a formalização de um pedido de licença bancária, que exigiria maiores aportes de capital e uma governança mais robusta.

Paralelamente, o Nubank enfrenta desafios operacionais. Em 2026, a empresa lida com uma onda de processos judiciais decorrentes de bloqueios unilaterais de contas, o que tensiona a relação entre a automação antifraude e o direito dos consumidores.
No México e na Colômbia, a concorrência com players locais como Mercado Pago e Rappi é intensa. A rentabilidade nessas geografias ainda não foi comprovada em escala, e a adaptação aos hábitos de crédito locais permanece como o principal desafio estratégico.
No campo da governança, David Vélez detém cerca de 23% do capital e 75% do poder de voto. Essa concentração decisória é um ponto de atenção para investidores institucionais durante a fase de expansão regulada.
O que vem nos próximos 24 meses
Três frentes simultâneas: licença no Brasil, escala nos EUA, rentabilidade no México.
O processo de obtenção de licença bancária no Brasil deve avançar, exigindo adequação às normas de Basileia III. Nos EUA, o Nubank recebeu aprovação condicional do OCC em janeiro de 2026, com foco inicial na comunidade latina. O prazo de implementação é de 18 meses a dois anos.

Por fim, a rentabilidade no México e na Colômbia ditará a percepção do mercado sobre a viabilidade da expansão internacional. A empresa transita de um modelo de crescimento acelerado para uma fase de maturidade institucional.
Sinais a observar em 2026-2027
- Pedido formal de licença bancária no Brasil com cronograma de capital detalhado.
- Divulgação de resultados financeiros segregados por país.
- Início da operação bancária nos EUA.
- Evolução dos processos judiciais e ajustes nas políticas de compliance.
- Movimentos de M&A para aquisição de infraestrutura ou consolidação de setor.
- Alterações na estrutura de governança e entrada de conselheiros independentes.
O Nubank chega a 2026 como a maior fintech da América Latina, mas enfrenta o paradoxo de precisar adotar a estrutura que sempre evitou para sustentar sua escala. Os próximos 24 meses serão decisivos para consolidar sua posição como player bancário regional.
Source · BrazilValley





