A presença de conservantes, corantes e emulsificantes em alimentos industrializados e cosméticos é uma realidade guiada por uma lógica industrial clara: estender a vida útil de um produto ou estabilizar sua textura. Contudo, a segurança de muitos desses aditivos é alvo de um debate constante, que expõe um descompasso fundamental entre a velocidade da produção científica e o ritmo, por natureza mais lento, das agências reguladoras.

Segundo uma análise do portal Xataka, o problema reside no fato de que um aditivo pode permanecer em uso massivo por décadas antes que o acúmulo de evidências científicas force uma reavaliação. A Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA), principal referência no continente, exige um corpo de evidências robusto para alterar uma norma, um processo que pode levar anos, durante os quais a exposição do consumidor continua.

Conservantes sob o microscópio

Dois exemplos ilustram bem essa tensão. O benzoato de sódio (E211), comum em refrigerantes, molhos e alimentos processados, e o sorbato de potássio (E202), usado em queijos e iogurtes, são considerados seguros pela EFSA dentro dos limites de ingestão diária. A agência, no entanto, já alertou que certos grupos populacionais podem facilmente exceder esses limites.

Enquanto a regulação se baseia em estudos toxicológicos consolidados, parte da comunidade acadêmica aponta para outras evidências. Pesquisas in vitro, como as do professor Peter Piper, da Universidade de Sheffield, documentaram danos ao DNA mitocondrial de células expostas ao benzoato de sódio. Embora esses estudos não sejam suficientes para uma proibição, alimentam um escrutínio mais rigoroso por parte de cientistas.

Do corante banido aos antioxidantes em debate

Em alguns casos, a ciência acaba por forçar a mão da regulação. O dióxido de titânio (E171), um corante branco usado por décadas em doces e cosméticos, foi banido como aditivo alimentar na União Europeia em 2022. A decisão veio após a EFSA concluir que não era possível descartar sua genotoxicidade — a capacidade de danificar o material genético. Curiosamente, seu uso em cosméticos, como protetores solares, permanece permitido.

Outras substâncias vivem em um limbo regulatório. O antioxidante BHA (E320), presente em snacks e cereais, é classificado pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) como "possível cancerígeno para humanos" (Grupo 2B). Já seu similar, o BHT (E321), permanece em uma categoria de evidência insuficiente. Essa distinção mostra a complexidade e as nuances por trás de cada avaliação.

O cenário não sugere que todos os aditivos permitidos sejam perigosos, mas sim que o sistema regulatório é, por desenho, reativo e conservador. Para o consumidor, a principal ferramenta não é o alarme, mas a informação: ler rótulos e compreender quais substâncias estão no centro do debate científico torna-se um exercício de autonomia e gestão de risco pessoal.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka