O diagnóstico sobre a trajetória fiscal do Brasil, vindo de vozes influentes do mercado financeiro, assumiu um tom de urgência raramente visto. Durante um painel na Expert XP, Gabriel Barros, economista-chefe da ARX Investimentos, e Bruno Funchal, CEO do Bradesco Asset, foram diretos: a condução da política econômica está “dando errado” e o tempo para uma correção branda se esgotou.

A metáfora de Barros, ex-diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI), resumiu o sentimento do debate: “O Titanic está indo em direção ao iceberg e não dá para ficar tocando violino”. A tese é que, sem uma mudança de rota abrupta, um “abismo fiscal” seguido de recessão é “inequívoco”. A conta, segundo ele, “vai chegar, como sempre chega”.

O tamanho do desafio

O problema, segundo as estimativas apresentadas por Barros, é de ordem matemática. Para estabilizar uma dívida pública que se aproxima de 85% do Produto Interno Bruto (PIB), o Brasil precisaria gerar um superávit primário de aproximadamente R$ 500 bilhões. Diante dessa cifra, discussões sobre ajustes marginais no arcabouço fiscal, como a redução do teto de crescimento dos gastos, soam insuficientes.

A leitura é que a solução exige um “choque, uma PEC”. A Proposta de Emenda à Constituição mencionada por Barros não seria trivial, pois teria de endereçar o cerne do problema: as despesas obrigatórias e as vinculações orçamentárias em áreas como saúde e educação, temas politicamente sensíveis e de difícil negociação no Congresso.

A crise da vontade política

Para Bruno Funchal, que já esteve do outro lado do balcão como Secretário do Tesouro, o arcabouço fiscal brasileiro tem um desenho moderno. O problema não está na ferramenta, mas na sua aplicação. “Não adianta você ter alguma coisa escrita indicando o que você precisa fazer. Você tem que querer gastar abaixo”, afirmou, apontando para uma falha de vontade política.

O resultado prático, segundo ele, é uma erosão de credibilidade. Mesmo com o aumento da arrecadação, o governo entregou déficits relevantes, o que anula a ancoragem de expectativas e mantém o prêmio de risco elevado. Isso força o Banco Central a operar com juros mais altos, freando a economia e, num ciclo vicioso, piorando a trajetória da própria dívida que se tenta controlar. A solução, para Funchal, passa por atacar um universo de R$ 2,5 trilhões em despesas obrigatórias.

O recado do painel é que o debate deixou de ser sobre a existência do problema e passou a ser sobre a inevitabilidade de seu desfecho. A questão que fica no ar não é se a colisão fiscal virá, mas se a classe política terá a capacidade de desviar do iceberg ou se o ajuste será imposto pela realidade, de forma muito mais dolorosa.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney