Uma exposição no prestigiado Walker Art Center, em Minneapolis, tornou-se o epicentro de um debate que define nossa era. O artista, arquiteto e designer nigeriano Olalekan Jeyifous viu sua obra ser rotulada por visitantes como "lixo de IA" ("AI slop"), uma acusação que ele e o museu refutam veementemente. A controvérsia, detalhada em uma reportagem do portal ARTnews, expõe uma nova e complexa camada na relação entre arte, tecnologia e percepção pública.

A tese aqui não é sobre um simples mal-entendido. O caso Jeyifous é um sintoma de uma nova e superficial "alfabetização em IA", onde o público se sente apto a identificar — e frequentemente descartar — o que parece ter sido gerado por inteligência artificial. Essa pressa no julgamento apaga a fronteira crucial entre arte feita com ferramentas digitais e arte feita por um prompt de IA generativa.

O fantasma na máquina

Jeyifous utiliza softwares de modelagem 3D e outras ferramentas digitais há mais de duas décadas, um processo comum em sua área de formação, a arquitetura. Sua estética, que explora cosmologias da diáspora africana com um toque especulativo, por coincidência visual se assemelha a muitas imagens que agora povoam o imaginário da IA generativa. O próprio artista, em entrevista, disse que já antecipava que seu trabalho pudesse ser visto sob essa nova lente.

A polêmica começou com uma postagem no Reddit, onde um usuário se disse "decepcionado" e acusou o museu de falta de transparência. A curadora do museu, Henriette Huldisch, reconhece que os softwares usados pelo artista, como o Photoshop, podem conter elementos de IA embutidos. No entanto, ela enfatiza que o processo de Jeyifous é "extremamente iterativo", envolvendo múltiplas etapas de renderização e reconceitualização, longe da simplicidade de gerar uma imagem a partir de um comando de texto.

Analfabetismo de segundo grau

O incidente no Walker Art Center serve como um alerta. À medida que a IA se torna uma camada invisível e onipresente em softwares criativos, a pergunta "isto foi feito com IA?" torna-se cada vez mais sem sentido. A demanda do público por um rótulo binário — "IA" ou "Não IA" — revela uma compreensão rudimentar da tecnologia, um tipo de analfabetismo de segundo grau, onde se sabe o suficiente para desconfiar, mas não o bastante para discernir.

Em resposta, o museu planeja adicionar textos explicativos à exposição. É uma medida reativa, mas que aponta para uma nova responsabilidade das instituições culturais: educar o público não apenas sobre o conteúdo da arte, mas sobre as ferramentas de sua criação. O risco é que o debate sobre o método ofusque a discussão sobre a obra em si, deslocando o foco da intenção do artista para uma auditoria técnica de seu processo.

No fim, a controvérsia em torno do trabalho de Jeyifous é menos sobre sua arte e mais um reflexo de nossa tentativa coletiva e desajeitada de definir autoria e autenticidade. As linhas estão sendo traçadas em tempo real, muitas vezes por um público que julga com os olhos, mas ainda não aprendeu a ver.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews