Uma nova e paciente modalidade de ataque cibernético está redefinindo as estratégias de segurança digital em escala global. Conhecida como “harvest now, decrypt later” — ou “colha agora, decifre depois” —, a tática consiste em capturar e armazenar grandes volumes de dados criptografados hoje, na expectativa de que o avanço da computação quântica permita quebrá-los no futuro. O dano não é imediato, mas a ameaça é existencial para a confidencialidade de informações de longo prazo.

No Brasil, a resposta a essa ameaça futura já começa a tomar forma. Segundo reportagem do Olhar Digital, o governo federal está implementando uma infraestrutura de comunicações que já nasce com defesas contra computadores quânticos. A iniciativa, parte das obrigações do leilão do 5G, sinaliza uma rara antecipação a um problema que, embora ainda no horizonte, pode tornar obsoletas as proteções digitais que sustentam a economia e o Estado moderno.

A ameaça silenciosa

A lógica do ataque “colha agora, decifre depois” inverte o imediatismo típico dos crimes cibernéticos. O alvo não são dados cujo valor é efêmero, mas sim informações estratégicas que permanecem relevantes por décadas: segredos de Estado, propriedade intelectual, pesquisas científicas e dados financeiros. Para os atacantes, é um jogo de paciência. Para as vítimas, um risco de obsolescência de seus mais robustos sistemas de segurança.

O especialista em tecnologia Arthur Igreja, em entrevista ao portal, compara a situação a um cofre de alta segurança cuja fechadura poderá ser aberta com facilidade por uma tecnologia futura. “É preciso lembrar que a criptografia é um dos grandes blocos fundamentais da nossa vida”, afirma, ressaltando que sua quebra em larga escala colocaria em risco a funcionalidade da internet como a conhecemos. O cenário é de uma fortaleza que, de uma hora para outra, se torna uma fragilidade exposta.

A resposta brasileira

Diante desse cenário, o Brasil deu um passo concreto. A implantação da Rede Privativa de Comunicação da Administração Pública Federal, uma das contrapartidas do edital do 5G, está sendo executada pela Entidade Administradora da Faixa (EAF) com uma premissa clara: segurança para o futuro. A arquitetura da rede, que usará uma malha de fibra óptica de alta performance, foi projetada desde o início para incorporar criptografia pós-quântica — algoritmos capazes de resistir tanto a computadores clássicos quanto aos quânticos.

Gina Marques, presidente da EAF, explicou a lógica por trás da decisão: “Imaginem a informação do governo que precisa ficar guardada por até 30 anos”. A preocupação não é apenas proteger o dado hoje, mas garantir sua confidencialidade ao longo de todo o seu ciclo de vida legal e estratégico. Ao integrar a proteção pós-quântica desde a concepção do projeto, a iniciativa busca evitar uma corrida desesperada para substituir sistemas quando a ameaça quântica se materializar.

O movimento do governo brasileiro, embora focado no setor público, serve como um importante precedente. A migração para a criptografia pós-quântica é uma tarefa complexa e custosa que exigirá planejamento e investimento de todo o setor privado. Proteger as informações de hoje significa, cada vez mais, antecipar quem — ou o quê — tentará acessá-las nas próximas décadas. A corrida já começou.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital