Operários desmontam, peça por peça, uma figura de sete metros de altura. Com seus membros angulares e silhueta que remete a um boneco-palito em movimento, a escultura "Blue", do artista Joel Shapiro, era um marco no campus do John F. Kennedy Center for the Performing Arts, em Washington, D.C. A obra, um presente do próprio artista à instituição em 2019, foi removida no início de setembro sem que o centro cultural oferecesse uma única razão oficial.
O silêncio institucional, contudo, foi preenchido por um ruído político. Segundo reportagem do The New York Times, documentos internos sugerem que a obra foi "marcada para eliminação após a tomada de controle do centro pelo presidente Trump". A acusação ecoa no meio artístico e alimenta um temor crescente sobre a autonomia das instituições culturais americanas.
O contrato quebrado
A reação da comunidade foi imediata. "Estou esmagada", declarou a escultora Deborah Butterfield à publicação ARTnews. Sua preocupação não é apenas com o destino de uma obra, mas com o que ela chama de "malevolência insidiosa por trás desta decisão" e o avanço de uma agenda que busca controlar o que o público vê, lê e pensa. A remoção é vista não como um ato administrativo, mas como um sintoma de um mal-estar maior.
A artista Mokha Laget, que também teve obras no Kennedy Center, descreve a quebra de um "contrato social entre artistas e instituições culturais". Esse pacto tácito se baseia na confiança de que a instituição cuidará da obra e proverá um contexto estável para sua exibição. "Quando esse contrato é quebrado, por qualquer motivo, de qualquer forma, é muito difícil reconstruí-lo", afirmou Laget.
O desmonte de "Blue" deixa um vazio no gramado do Kennedy Center, mas ocupa um espaço muito maior no imaginário coletivo. A ausência da escultura se torna um monumento próprio: um memorial à fragilidade da arte frente ao poder e uma pergunta sobre quem define o que é digno de permanecer no espaço público.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





